top of page

Sadismo e Masoquismo

Sansão e Dalila de Peter Paul Rubens (c.1609 - c.1610)
Sansão e Dalila de Peter Paul Rubens (c.1609 - c.1610)

É necessário complicar a ideia de que “sádico é quem gosta de machucar” e “masoquista é quem gosta de apanhar”.


Na psicanálise, sadismo e masoquismo não são definidos apenas pelo comportamento visível, mas pela função psíquica que assumem para o sujeito. Para falar propriamente em sadismo, interessa saber se o sofrimento, a submissão ou a desorganização do outro entram no circuito de satisfação do sujeito. Da mesma forma, alguém pode sofrer, tolerar maus-tratos ou até se colocar repetidamente em situações prejudiciais sem “gostar de apanhar”. No masoquismo, o ponto não é necessariamente um prazer consciente na dor, mas o fato de o sofrimento adquirir uma função psíquica, servir à excitação, à culpa, à necessidade de punição, à manutenção de um vínculo, à preservação do amor de alguém ou à satisfação inconsciente.


Sadismo” vem do Marquês de Sade (1740–1814), escritor francês cuja obra literária ficou marcada por cenas de crueldade, domínio, violência, transgressão sexual e prazer associado ao sofrimento do outro. “Masoquismo” vem de Leopold von Sacher-Masoch (1836–1895), escritor austríaco, autor de A Vênus das Peles. Nesse romance, o protagonista procura uma mulher que o domine, humilhe e castigue, chegando a orientar ativamente a mulher sobre como ela deve ocupar essa posição. Quem transformou esses nomes próprios em termos psiquiátricos foi o psiquiatra Richard von Krafft-Ebing, em Psychopathia Sexualis, de 1886.


E daí vem outro ponto fundamental: sadismo e masoquismo como conceitos psicanalíticos não são sinônimos de sadismo e masoquismo como práticas BDSM. É possível falar em masoquismo numa pessoa que jamais desejou ser amarrada sexualmente. Do mesmo modo, alguém pode participar consensualmente de uma cena BDSM envolvendo dor, humilhação encenada e submissão sem que isso signifique que organize sua vida de maneira masoquista.


Uma prática sexual pode envolver dor de maneira delimitada, simbolizada, consentida e reversível, e o sujeito sair daquela cena e viver relações em que exige respeito, autonomia e reciprocidade. Isso é muito diferente de uma organização subjetiva na qual sofrer se torna condição para ser amado, existir ou obter satisfação.


Prática sexual, fantasia e estrutura: níveis distintos de análise psicanalítica


Em psicanálise, não se deveria inferir uma organização perversa a partir da aparência de uma prática sexual. O que alguém faz sexualmente, a fantasia que utiliza para se excitar, a presença de componentes perverso-polimorfos na sexualidade e uma eventual estrutura perversa são níveis diferentes de análise.


Freud produz uma ruptura porque, ao formular a sexualidade constitucionalmente como perverso-polimorfa, introduz a perversão na própria constituição da sexualidade humana. Ou seja: aquilo que anteriormente distinguia o “perverso” das pessoas normais passa, em algum nível, a fazer parte de todos nós.


Psicanalistas como Joyce McDougall preferem falar em “neossexualidades” para certas práticas (exibicionismo, voyeurismo, sadomasoquismo, fetichismo etc.) justamente para evitar que “perversão” funcione automaticamente como condenação da vida sexual.


Um homem pode sentir prazer em dominar sexualmente sua parceira, amarrá-la e produzir dor consensualmente e, fora daquela cena, reconhecer sua autonomia, preocupar-se com seus limites e interromper imediatamente a situação se ela retirar o consentimento. Outro homem pode ter uma vida sexual convencional e passar os dias diminuindo a esposa, manipulando sua insegurança, desfrutando de sua dependência e tratando-a como instrumento de satisfação.


Uma fantasia sexual pode conter elementos masoquistas de excitação. Disso não decorre automaticamente que “ela seja masoquista” no sentido em que se falaria de um funcionamento psíquico.


O sadismo pode ser definido como uma modalidade de relação em que existe um gozo ligado ao sofrimento do outro. Mas essa fórmula dispensa a necessidade de ódio. O outro pode ser submetido a um gozo sádico por indiferença, quando, por exemplo, deixa de ser reconhecido como sujeito e passa a funcionar como suporte para o gozo de alguém.


Tentando uma aproximação, daria pra definir sadismo como a obtenção de satisfação mediante uma relação em que o sofrimento ou submissão do outro passa a integrar o próprio gozo, com redução desse outro à condição de objeto.


Em 1924, Freud distingue três formas de masoquismo. O masoquismo erógeno é o prazer na dor e funciona como base das demais formas. O chamado masoquismo feminino, descrito sobretudo a partir de fantasias de homens, envolve cenas de submissão, humilhação, dependência, castigo, ser amarrado ou colocado numa posição passiva. Já o masoquismo moral se afasta da sexualidade manifesta e aparece como uma necessidade inconsciente de punição: o sujeito pode produzir fracassos, sofrimentos ou situações de castigo sem saber que há satisfação pulsional envolvida nisso. Freud diferencia, então, o sadismo do supereu (um supereu cruel que pune o eu) do masoquismo do eu, que parece procurar ou necessitar desse castigo. Por isso, sadismo e masoquismo, em Freud, não são apenas práticas sexuais, tornam-se modos de pensar a relação entre agressividade, libido, culpa, punição, sofrimento e a relação entre eu e supereu.


Um comentário aqui se faz necessário. Em Freud, “feminino” acaba frequentemente colado a passividade, submissão, castração e dependência. O problema é que essa associação transforma uma posição psíquica possível em característica supostamente própria das mulheres. Se uma mulher permanece numa relação violenta, pode ser tentador interpretá-la como alguém que “inconscientemente quer sofrer” ou “goza com a violência”. Só que existem inúmeras razões concretas para permanecer: medo de ser morta, dependência financeira, filhos, isolamento social, ameaças, ciclo da violência, ambivalência afetiva, esperança de mudança, falta de apoio institucional. Transformar essas condições em “masoquismo feminino” pode deslocar a atenção do agressor e da estrutura coercitiva para uma suposta cumplicidade psíquica da vítima.


Destinos do sadismo e masoquismo


Outro ponto é que a ideia de passividade e masoquismo pode ser ingênua, pois a aparência de passividade do masoquismo encobre uma atividade na construção da fantasia. Freud descobriu algo importante sobre a possibilidade humana de erotizar submissão, sofrimento e humilhação. O salto problemático foi associar essa posição à feminilidade como se houvesse uma afinidade especial entre ser mulher e ocupar o lugar passivo.


Alguns autores fazem diferenciações em relação ao sadismo. Silvia Bleichmar fala em sadismo pulsional ou precoce (em que o objeto é usado sem que ainda e exista o pleno reconhecimento do objeto como sujeito) e o sadismo como formação psicopatológica (existe reconhecimento da subjetividade do outro e, simultaneamente, uma operação destinada a desfazê-la ou subjugá-la). Bleichmar faz ainda uma separação entre sadismo moral e sadismo erógeno. Uma pessoa pode humilhar, dominar e torturar outra por razões narcísicas, por poder, vingança ou crueldade, sem que exista necessariamente um gozo sexualizado.


Na versão simples da teoria clássica, poderia parecer que sadismo é fazer o outro sofrer e masoquismo é se fazer sofrer. Mas essas definições são insuficientes. No masoquismo erógeno, o sofrimento do próprio corpo é incorporado ao circuito de satisfação. No livro "Verguenza, Culpa e Pudor", Bleichmar dá o exemplo de uma paciente que mordia o interior da própria boca até sangrar. Ela interpreta isso como algo diferente de uma simples “agressividade contra si”. O próprio corpo passa a ser tomado como objeto de uma ação pulsional, de modo bastante desubjetivado. Ou seja, não é necessariamente “eu quero conscientemente me machucar”. Pode haver uma espécie de divisão: uma parte do psiquismo exerce a ação e o próprio corpo ocupa a posição de objeto.


Já o masoquismo moral é diferente. Aqui a pessoa pode organizar repetidamente situações de humilhação, punição, fracasso, submissão ou sofrimento sem que o sofrimento corporal seja eroticamente excitante. Um exemplo de Bleichmar é o de alguém que destrói as próprias realizações. Poderíamos rapidamente dizer: “ela se pune porque sente culpa”. Bleichmar rejeita essa explicação naquele caso. A paciente destruía aquilo que conseguia porque atacava, dentro dela, uma mãe internalizada que a havia feito sofrer. Portanto, a autodestruição pode ser também uma forma indireta de atacar um objeto interno. O sofrimento do próprio sujeito não significa necessariamente que ele seja o destinatário último da agressão.


Há ainda outro masoquismo moral que aparece nas relações amorosas: submeter-se para ser amado. A pessoa suporta humilhação, maus-tratos, privação ou sacrifício porque psiquicamente funciona algo como “se eu sofrer o suficiente por você, você vai me amar". Bleichmar diz que, em certas formas de masoquismo moral, o sofrimento funciona como preço pago pelo amor e cria uma expectativa posterior de compensação. Ela aproxima isso inclusive de certas fantasias religiosas: sofrer agora para receber algo depois.


Isso significa que masoquismo também não é necessariamente “gostar de sofrer”. A pessoa pode detestar conscientemente o sofrimento e, ainda assim, estar aprisionada numa organização na qual sofrer preserva alguma outra coisa.


O critério central para pensar o sadismo e o masoquismo é o lugar da alteridade. No sadismo propriamente clínico, reconheço que há um outro e, de algum modo, faço da sua subjetividade ou do seu corpo matéria para meu gozo. No masoquismo, algo semelhante pode ocorrer com o próprio sujeito: seu corpo, suas realizações ou sua própria vida podem ser tratados como se fossem objetos a serem castigados ou sacrificados.


Um ponto que sempre merece atenção é de que nem toda destrutividade é sadismo. Há uma agressividade vital que pode ser condição de criatividade e separação. Da mesma maneira, é preciso diferenciar automutilação e masoquismo: uma pessoa pode se cortar buscando limite corporal, concretude ou regulação de uma experiência difusa, sem que a finalidade seja obter prazer do sofrimento.


O masoquismo também muda de roupa. Talvez hoje uma das suas formas mais difíceis de reconhecer seja justamente aquela que se apresenta como mérito. Sofrer pode ser convertido em certificado moral. O sofrimento deixa de ser um custo eventual para se tornar uma condição necessária para que a pessoa reconheça valor no que faz. Há também um masoquismo amoroso muito contemporâneo: permanecer ligado justamente ao objeto que oferece pouco: a indisponibilidade do outro pode aumentar seu valor.

 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page