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Ganho terciário

"The Intrigue" de James Ensor (1890)
"The Intrigue" de James Ensor (1890)

Ganho secundário é originalmente um conceito psicanalítico, sobretudo freudiano, que depois passou a circular também na psicologia clínica, psiquiatria e medicina. Freud percebeu que um sintoma pode, depois de instalado, adquirir “utilizações” na vida psíquica. Eis o benefício ou ganho secundário.


Se o ganho primário ocorre dentro do conflito psíquico, o ganho secundário acontece nas consequências que o sintoma produz. Se o ganho primário é constitutivo do sintoma, o ganho secundário não necessariamente, podendo aparecer depois.


Como dá pra perceber, essa distinção entre benefício primário e secundário é feita de forma bastante aproximada, uma fronteira difícil de traçar. Donna Connors, numa crítica feminista de 1985 com um título ótimo (Women's “sickness”: a case of secondary gains or primary losses?) inverte o foco. No lugar de começar procurando aquilo que mulheres supostamente “ganham” ao adoecer, ela propõe olhar para as perdas primárias e para as condições sociais em que o adoecimento aparece. É uma crítica importante porque “ganho secundário” pode facilmente transformar condições opressivas em psicologia individual e o clínico começa procurando o que ela “ganha” ficando doente.


Mas gostaria de falar mais sobre um uso relativamente bem definido da ideia de “tertiary gain” (ganho terciário) na literatura psiquiátrica e psicossomática, embora seja muito menos difundido que os ganhos primário e secundário. Quem introduz explicitamente o termo é o psiquiatra Daniel Dansak, em 1973, no artigo On the Tertiary Gain of Illness. A ideia é considerar o benefício obtido por outra pessoa a partir da doença ou do sintoma do paciente. Ou seja, o ganho está em um terceiro, e não no próprio sujeito sintomático.


Às vezes, o sintoma de A resolve um problema de B. Isso permite perguntas que o conceito de ganho secundário não captura muito bem. Nesse sentido, o ganho terciário conversa muito com teoria relacional e de grupo da psicanálise, porque o sintoma deixa de ser pensado exclusivamente em termos da economia psíquica daquele que o apresenta e passa a ser examinado também pela função intersubjetiva que desempenha para os outros membros do sistema.


E há uma consequência clínica que me parece ainda mais interessante: às vezes existe resistência à melhora localizada no outro. O paciente pode querer mudar, mas sua mudança produz uma perda para alguém próximo. Essa pessoa então pode, sem planejamento consciente, sabotar, desautorizar ou desencorajar a mudança.


Assim, há situações em que o sofrimento do paciente persiste parcialmente porque há alguém ao redor para quem a situação atual funciona muito bem. Podemos pensar aqui também no conceito de paciente emergente ou paciente identificado, discutido no livro Dicionário de Psicanálise de Casal e Família. Um sistema familiar, por exemplo, pode depositar aspectos considerados perigosos ou indesejáveis em um de seus membros. Essa pessoa passa a funcionar como continente desses conteúdos, o que “livra os outros membros” de aspectos conflitivos ou inaceitáveis de própria identidade.


Aqui o “ganho terciário” não é necessariamente atenção, dinheiro ou poder, mas algo como "eu consigo não reconhecer determinada coisa em mim porque você a encarna por nós".


Nessa lógica relacional, o sintoma está em alguém, mas não necessariamente pertence somente a alguém. Isso é diferente de dizer que a família “causou” o sintoma. Significa que a existência, a localização e eventualmente a persistência daquele sintoma podem cumprir funções para várias pessoas simultaneamente.

 
 
 

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