top of page

As sereias da Odisseia: uma leitura psicanalítica

John William Waterhouse — Ulysses and the Sirens (1891)
John William Waterhouse — Ulysses and the Sirens (1891)

As sereias aparecem no Canto XII da Odisseia, poema épico atribuído a Homero, provavelmente composto entre os séculos VIII e VII a.C. Odisseu está tentando voltar para Ítaca depois da Guerra de Troia, uma viagem que deveria ser simples em teoria e que acaba durando dez anos. Em grande parte porque, no universo homérico, pegar o caminho de casa nunca significa apenas pegar o caminho de casa.


As sereias vivem numa ilha e atraem os navegantes com o canto. Quem se aproxima e escuta não prossegue viagem. O perigo, portanto, é conhecido com antecedência. Circe oferece uma solução. Os marinheiros devem ter os ouvidos tapados com cera. Odisseu, porém, pode escutar, desde que seja amarrado ao mastro e ordene aos companheiros que não o soltem, por mais que ele implore.


Na psicanálise, as sereias foram lidas como uma cena condensada de desejo, regressão, voz, morte e defesa. Freud não deixou uma interpretação clássica específica do episódio das sereias. Boa parte dessas leituras foi feita por psicanalistas posteriores ou por autores fortemente atravessados pela psicanálise.


Amarrar-se também significa criar uma situação em que Odisseu pode aproximar-se do objeto desejado sem jamais poder alcançá-lo. Há algo na própria voz que captura os sujeitos.


Géza Róheim, um dos pioneiros da antropologia psicanalítica e analisando de Ferenczi, produziu uma interpretação extremamente freudiana do mito. Uma formulação dele que ficou conhecida é: “The Song of the Sirens is a mother’s lullaby” — “o canto das sereias é uma canção de ninar materna”. A referência aparece em estudos posteriores sobre as sereias e psicanálise.


A consequência da leitura de Róheim é bem rica: o canto seduz porque promete algo semelhante a um retorno a um estado anterior à separação (voz materna, envolvimento, passividade, satisfação e perda das fronteiras do eu). A atração pela sereia contém, portanto, uma dimensão simultaneamente erótica, regressiva e mortífera.


Odisseu não elimina o desejo, mas constrói previamente um dispositivo que o impede de agir quando estiver tomado por ele. O preço da autoconservação é a renúncia à satisfação.


Há uma corrente psicanalítica de estudar a voz materna como experiência anterior ou limítrofe à organização simbólica: voz que envolve, sustenta, seduz e, em certas formulações, também aprisiona. Isso casa muito bem com a sereia homérica. O inglês siren e o português sereia vêm, em última instância, do mesmo nome grego.


Mas a imagem que hoje associamos imediatamente à palavra “sereia” (mulher da cintura para cima e peixe da cintura para baixo) não corresponde necessariamente às Seirēnes gregas antigas. Na iconografia grega elas aparecem sobretudo como seres híbridos de mulher e ave. A associação das Sirens com a mulher-peixe se consolidou bem mais tarde, particularmente durante a Idade Média. Justamente quando a cultura grega absorvia muitos motivos artísticos do Oriente Próximo, começam a aparecer na arte grega criaturas com cabeça humana e corpo de ave.


A transformação em mulher-peixe ocorreu muitos séculos depois. Com o passar dos séculos, elas acabaram sendo aproximadas de outras criaturas femininas aquáticas que já existiam no folclore europeu e mediterrânico.


Renata Salecl escreveu que Quando ouvimos o som de uma sirene, pensamos imediatamente: “Perigo!”, ou talvez até “Morte”. Durante a guerra, o sinal codificado das sirenes avisa sobre ataques inimigos". Salecl fala das sereias como entre a vida e a morte. São, ao mesmo tempo, desejo puro e morte pura.


Homero diz que quem sucumbe ao canto não volta para casa, não encontra a esposa nem os filhos. A sereia representa algo que pode retirar o homem do circuito social, familiar e simbólico e fazê-lo confrontar diretamente com a pulsão.


Há uma coisa estranha em A Odisseia que também aparece no filme: nunca ficamos sabendo exatamente o que as sereias cantam. O canto precisa permanecer não dito para que a própria narrativa possa existir.


Para que exista o relato das sereias, o canto das sereias precisa desaparecer. O objeto fascinante só pode sobreviver como algo perdido. O saber das sereias seria um saber que não consegue entrar na memória das gerações futuras. É um saber ligado a algo traumático, que não se integra completamente à história que o sujeito conta sobre si.


Para alguns autores, Odisseu usa uma estratégia com tons obsessivas para ouvir o canto da sereia amarrado. O obsessivo mantém o objeto desejado próximo o suficiente para sustentar o desejo, mas constrói obstáculos para impedir o encontro efetivo.


No conto "O silêncio das sereias", Kafka transforma a experiências com as sereias em algo mais estranho: talvez as sereias nem tenham cantado. O silêncio é mais perigoso porque produz um vazio que Ulisses pode preencher com sua própria fantasia. O silêncio é mais perigoso porque produz um vazio que Ulisses pode preencher com sua própria fantasia. Diante do canto, existe alguma coisa externa contra a qual lutar. Diante do silêncio, é o próprio sujeito que produz aquilo que acredita estar acontecendo. Kafka transforma, portanto, uma história sobre resistir à tentação numa história sobre fantasia e percepção.

 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page