Resenha psicanalítica sobre o filme A Praga (2026)
- Rafael Santos
- há 5 horas
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A Praga (The Plague) é um suspense psicológico ambientado em um acampamento masculino de polo aquático. O protagonista é Ben, um menino de 12 anos, recém-chegado ao grupo, que tenta se integrar a uma hierarquia social liderada por Jake. No centro da violência está Eli, um garoto marginalizado, tratado pelos colegas como portador de uma suposta doença chamada “a praga”.
O filme fala de puberdade, medo de humilhação, terror de exclusão e necessidade desesperada de não cair na posição do rejeitado. A literatura psicanalítica descreve a puberdade como uma crise “normal”, mas violenta em seu núcleo: o adolescente é confrontado por transformações corporais e pulsionais que não controla. Pode viver o próprio corpo como um “corpo estrangeiro”, com fragilização narcísica e necessidade aumentada de apoio do entorno
Nesse contexto de desenvolvimento, o que para um adulto pode parecer pouca coisa, para um menino na borda da puberdade pode equivaler a uma ameaça de desintegração narcísica. O filme entende essa economia psíquica com uma precisão absurda.
Pesquisas de prevenção ao bullying mostram que muitos jovens agridem para obter ou manter poder social, elevar status, demonstrar lealdade ao grupo, excluir alguém e controlar os colegas. Essa lógica fica mais intensa na passagem pubertária, quando pertencimento e status entre pares se tornam preocupações centrais.
Soma-se a isso o funcionamento de grupo. Freud observou que, sob vínculos coletivos e figuras de autoridade, identidade pessoal, julgamento e freios morais podem se alterar. No grupo, o sujeito se deixa levar por identificações e por uma economia afetiva que não é mais apenas “dele”. Quando o grupo oferece uma solução simples (“aquele ali é a praga”), a tentação de aderir é enorme. O bullying, nesse sentido, é também um arranjo defensivo coletivo.
Ben é um personagem interessante porque não é nem carrasco nem mártir ou salvador. Ele chega como um menino deslocado e que deseja pertencimento, tendo o desafio de precisar se ajustar a uma hierarquia já montada. Por isso ele oscila entre simpatia por Eli e submissão à lógica de Jake. Essa oscilação é eticamente central: Ben sabe, em alguma parte de si, que o grupo é cruel, mas também sabe que ficar do lado de Eli pode custar sua própria inscrição na comunidade. O filme, aí, é profundamente moral sem ser moralista.
Quanto às manchas que também aparecem no corpo de Ben, poderíamos pensar em várias possibilidades para os rashs cutâneos e o filme deixa isso em aberto: cloro, fungos, estresse, ficar com camisa molhada, além de erupções próprias da idade. A psicodermatologia descreve uma relação bem documentada entre estresse psicológico e piora de condições como acne, eczema, psoríase e pruridos.
A identificação com Eli também entra aqui com bastante força. Ben oferece cuidado a Eli, aproxima-se dele, toca a zona interditada e, logo depois, começa a portar no próprio corpo o signo daquilo que o grupo expeliu. No meio dos conflitos, o técnico deixa sem eficácia, mas com boas intenções, mediar as relações do grupo. Há boa vontade, mas não há instituição suficiente. E o filme mostra (pela ausência) isso bem. O filme não mostra uma instituição sádica no sentido clássico. Mas mostra algo, quem sabe, até pior: uma instituição isolada da família e do social, despreparada, sustentada por boa intenção e pouca estrutura.
O filme nos coloca dentro da experiência pré-adolescente, em que o corpo muda rápido e qualquer detalhe físico pode virar destino. A praga talvez não seja real como entidade médica, mas é real como sistema de crença e de exclusão. The Plague entende que, na pré-adolescência, adoecer socialmente não tem diferença com adoecer "de verdade".
No caso de The Plague, a questão masculina também é importante. Mostra um grupo de meninos tentando descobrir o que é “ser homem” antes de ter recursos psíquicos para sustentar vulnerabilidade, medo, vergonha e insegurança. Só que todos eles, de maneiras diferentes, vivem exatamente isso. O grupo tenta fabricar homens por expulsão: para saber quem é homem, primeiro inventa quem não é.
A praga ocupa o papel de objeto fóbico compartilhado. A praga organiza o medo. Permite que a angústia difusa vire algo localizável e identificável.
Outro ponto que veio em relação ao filme é de que sem uma pedagogia do cuidado, o esporte pode virar treinamento de exclusão. No polo aquático, o corpo precisa servir ao desempenho, à força, à masculinidade competitiva e de disputa por espaço. Não à toa, a dança aparece em alguns momentos do filme como um contraponto, breves libertações.
O esporte escolar ocupa um lugar ambíguo na formação das crianças: pode ser uma das experiências mais ricas de convivência e descoberta do corpo, mas também pode se tornar um dos palcos mais cruéis da vida escolar. Mas o problema não está no esporte em si. Está na forma como ele é organizado, mediado e simbolizado pela escola. Em A Praga, o polo aquático aparece como uma forma de organização social. A piscina parece democrática, porque todos entram na mesma água, mas o filme mostra o contrário: mesmo dentro do mesmo espaço comum, há hierarquia, exclusão e disputa por pertencimento.



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