top of page

Limerência: uma leitura psicanalítica

Portrait of a Lady de Bernardino Luini (1520)
Portrait of a Lady de Bernardino Luini (1520)

A palavra limerência vem do inglês limerence. Foi criada pela psicóloga norte-americana Dorothy Tennov para nomear um estado específico de paixão involuntária, marcado por pensamentos intrusivos, idealização e necessidade intensa de reciprocidade. O termo tornou-se conhecido com o livro Love and Limerence: The Experience of Being in Love, publicado em 1979. Tennov procurava um termo novo e relativamente neutro, que não carregasse as muitas ambiguidades de palavras como “amor”, “paixão” ou “obsessão”.


Isso explica por que ela soa estranha: foi criada para ser uma palavra nova, sem carregar previamente as ideias de amor, paixão, obsessão, doença ou desejo. Em português, a sonoridade da palavra, mesmo sem relação etimológica, de um campo sonoro muito sugestivo: carência, dependência, insistência, aderência. É provavelmente daí que vem esse “quê de pegajoso” da palavra. Quase como se o próprio som reproduzisse o fenômeno: começa leve, mas termina se demorando. E a a limerência é justamente um desejo que adere, uma paixão que se alimenta menos do encontro do que da possibilidade do encontro. O desejo fica preso em uma porta entreaberta.


Na limerência, o outro se torna um objeto evocativo de enorme potência. Uma mensagem não é somente uma mensagem. Ela produz vitalidade, esperança, excitação, alívio. A pessoa sente que voltou a existir. Talvez o outro evoque a experiência de finalmente ser escolhido. Talvez represente uma vida mais interessante, um corpo mais desejável, uma juventude recuperada, uma saída da solidão. Seria preciso perguntar: quem eu me torno quando imagino que essa pessoa me ama?


É preciso também estabelecer uma certa diferença entre limerência e erotomania. Na limerência: “Preciso saber se essa pessoa me amaNa erotomania: “Eu sei que essa pessoa me ama, mesmo que negue”. Na acepção psiquiátrica atual, erotomania (também chamada síndrome de De Clérambault) é uma forma de delírio em que a pessoa possui a convicção de que alguém está apaixonado por ela. Frequentemente, o objeto é distante, inacessível, casado, famoso ou socialmente mais elevado. O núcleo da erotomania é sentir-se amado pelo outro. Já a limerência é descrita como apego involuntário, intrusivo, fixado e alimentado pela necessidade de atenção ou correspondência do “objeto limerente”.


Quando alguém se torna afetivamente indispensável, sua imagem psíquica passa a concentrar uma quantidade enorme de investimento. Se o vínculo se rompe, ou parece ameaçado, o eu tenta compensar a ausência exterior tornando a imagem interior ainda mais intensa. O paradoxo é cruel: quanto mais o outro se afasta na realidade, mais ele pode crescer dentro da mente.


A psicanalista Julia Kristeva aproxima a experiência amorosa da melancolia. Em todo amor existe a possibilidade da perda, mas alguns encontros parecem despertar perdas muito anteriores. O amante atual recebe a sombra de objetos amados que não puderam ser inteiramente abandonados. Por isso, certos acontecimentos aparentemente pequenos produzem um desespero desproporcional. A dor presente entra em ressonância com separações antigas.


O sujeito não sofre apenas porque alguém não respondeu. Sofre porque, por um instante, volta a ocupar o lugar daquele que não foi escolhido, não foi protegido ou não conseguiu manter perto de si alguém de quem dependia.


A limerência pode funcionar como uma tentativa de reparar essa perda antiga. O novo objeto amoroso aparece como alguém capaz de reescrever retrospectivamente a história. Se ele me escolher, talvez eu finalmente deixe de ser aquele que foi abandonado. É uma esperança compreensível. Também é uma responsabilidade impossível colocada sobre outra pessoa.


Há outro aspecto da limerência que merece atenção. Ela frequentemente se dirige a pessoas pouco disponíveis: alguém comprometido, distante, ambíguo, emocionalmente fechado ou incapaz de oferecer uma relação estável. Isso pode parecer simples azar. Algumas vezes, é. Em outras, a impossibilidade exerce uma função. Não significa que toda pessoa limerente tenha uma estrutura obsessiva. Mas a ideia ajuda a compreender por que certos desejos crescem justamente onde quase não podem ser realizados.


O trabalho psíquico pode se iniciar quando a atenção deixa de se concentrar exclusivamente no comportamento do outro e se volta para a cena interna que ele despertou. Tentar combater a limerência apenas com argumentos racionais costuma produzir pouco efeito. A pessoa já sabe que está pensando demais.


O que exatamente essa pessoa promete? O que seria provado caso ela escolhesse você? Que versão sua aparece quando ela demonstra interesse? O que desaparece quando ela se afasta? Qual experiência antiga retorna na espera por uma resposta? Essas perguntas não têm a função de desqualificar o sentimento, mas de devolver profundidade a ele.


O objeto limerente nunca é apenas alguém. Ele pode representar a prova de que o sujeito é desejável, a possibilidade de ser finalmente escolhido, a reparação de rejeições anteriores, uma vida que ainda não aconteceu, entre outras possibilidades. Poderíamos resumir dizendo que o sujeito limerente investe intensamente em um objeto que parece conter algo essencial para seu próprio eu. É por isso que perder o objeto pode parecer perder uma parte de si.


Não se trata de arrancar o outro da mente, mas de devolvê-lo às proporções humanas.


 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page