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Resenha psicanalítica de O Convite (2026)


O filme O Convite (2026), dirigido por Olivia Wilde, começa com uma frase de Oscar Wilde: “Deve-se estar sempre apaixonado. É por isso que nunca se deve casar”. Fiquei curioso para descobrir algum tipo de parentesco, mas pelo que entendi a diretora adotou “Wilde” como nome artístico em homenagem a Oscar Wilde. . A genealogia termina aí, para frustração de qualquer análise transgeracional.


A epígrafe de abertura está em uma peça chamada “A Woman of No Importance”. Com um título irônico, é uma comédia de costumes de 1893. Pulando para 2026, Olivia Wilde também faz de O Convite uma comédia de costumes e os costumes examinados são os da classe média urbana contemporânea: casamento, monogamia, desejo sexual, masculinidade, ressentimento conjugal e a obrigação de parecer um casal emocionalmente funcional.


A estrutura do filme é bastante próxima do teatro de costumes: poucos personagens, um único ambiente, uma reunião social, máscaras de civilidade que vão caindo, personagens que representam diferentes modelos de socializabilidade e desejo.


Essa teatralidade não é acidental: o filme é uma adaptação de Sentimental, de Cesc Gay, que por sua vez deriva de uma peça peça espanhola Los vecinos de arriba, de 2016.


A epígrafe de Oscar Wilde funciona quase como uma provocação que a narrativa passará os próximos minutos tentando confirmar, desmentir e complicar. No contexto original, ou seja, na peça de Oscar Wilde, é a frase de um homem que desejava preservar indefinidamente o estado de paixão por não suporta aquilo que vem depois. Já no filme de Olivia Wilde, ela encontra personagens que já vivem justamente nesse depois.


Se tem alguém lendo isso, imagino que ela já tenha assistido ao filme e tido a curiosidade de saber mais sobre isso. Mas uma sinopse que encontrei na internet diz isso aqui: “A comédia dramática O Convite acompanha Joe (Seth Rogen) e Angela (Olivia Wilde), um casal em crise. Tentando quebrar a rotina, eles convidam os vizinhos do andar de cima, Hawk (Edward Norton) e Piña (Penélope Cruz), para um jantar. O encontro rapidamente se transforma em uma noite caótica e constrangedora, expondo as profundas fragilidades dos dois relacionamentos”.


O casal de cima desce


E já indo para muitos spoilers, o que começa como uma noite entre casais até então desconhecidos expõe o que existe dentro de cada casamento. Mas antes do jantar em si, o filme começa com o personagem de Seth Rogen andando de bicicleta. Antes de conhecermos a história de Joe, já conhecemos seu corpo: cansado, desajeitado, suado, sem elegância e sem reserva energética. O ressentimento masculino de Joe nasce de uma ferida narcísica: ele não se tornou o homem que imaginava .Ele já está sem potência antes que a questão da impotência sexual seja mencionada.


Quando Angela anuncia o jantar, ele não recebe propriamente um convite. Recebe outra demanda. Aliás, esse poderia ser um bom título alternativo ao filme: A Demanda. Quase tudo entre Joe e Angela (Seth Rogen e Olivia Wilde no filme) já assumiu a forma de uma demanda. Nenhum dos dois consegue formular diretamente o que deseja, então cada desejo reaparece como cobrança.


Cada um acredita estar oferecendo muito e recebendo pouco, porque ambos contabilizam gestos concretos enquanto esperam, de maneira secreta, alguma reparação. Angela quer que Joe devolva vitalidade ao casamento. Joe quer que Angela deixe de funcionar como testemunha de seu fracasso. É muito trabalho para qualquer casamento.


Dentro da teoria psicanalítica, com toda a sua diversidade, daria para arriscar dizer algo assim: o neurótico prefeere ouvir a demanda porque ela poupa de fazer o sujeito lidar com o seu desejo.


Mas vamos para Piña e Hawk, interpretados por Penélope Cruz e Edward Norton, esse último a quem eu nunca mais tinha visto em um filme. Antes de serem Piña e Hawk, eles são um som. Isso permite que o casal de cima funcione como uma superfície quase perfeita de projeção. Eles ainda não são pessoas; são aquilo que Angela e Joe imaginam que lhes falta.


Proposital ou não, poderíamos pensar que Hawk é ex-bombeiro porque o personagem é organizado em torno da fantasia do resgate. O bombeiro entra no lugar de onde os outros estão fugindo. Aproxima-se do calor, suporta o perigo, mantém a calma. Edward Norton funciona tão bem no personagem porque passa bem essa energia de parecer relaxado sem jamais ficar inteiramente desarmado. É como se Hawk executasse o seu novo modo de vida com disciplina.

Piña é a terapeuta da neurose condominial que o filme vai montando. Sua função é quase de escutar o que os outros dizem enquanto percebe aquilo que estão tentando não dizer. Piña parece sempre interessada naquilo que escapa ao controle de Joe e Angela. Um casal formado por dois especialistas em crises, um que atravessa e outro que interpreta.


Aos poucos, Piña e Hawk entram no apartamento oferecendo mais do que sexo: oferecem novas versões de vida. Aliás, dá aqui para voltar na frase de Oscar Wilde, a epígrafe do filme: “Deve-se estar sempre apaixonado. É por isso que nunca se deve casar”. Ela diz algo estranho. Não diz que devemos amar sempre a mesma pessoa. Diz que devemos permanecer apaixonados. Apaixonados por alguém, por alguma coisa, por uma possibilidade, por uma versão ainda desconhecida de nós mesmos. O problema do casamento não seria necessariamente a exclusividade, mas a tentativa de transformar o acontecimento amoroso em patrimônio adquirido. O mandamento de Wilde de deve-se estar sempre apaixonado pode significar não transformar o outro numa coisa definitivamente conhecida.


Outro elemento no filme que se conecta a isso é que Joe e Angela vivem numa estrutura que já existia antes deles: recebida da geração anterior, carregada de uma história na qual Angela tenta inscrever alguma coisa própria por meio da decoração e das reformas, aspecto que aparece com evidência no filme. O imóvel oferece segurança, continuidade e patrimônio, mas também pode produzir a sensação de que a vida está sendo vivida dentro de um espaço desenhado.


Aliás, a palavra imóvel carrega uma ambiguidade que enche os olhos de um psicanalista de lágrima. A casa é um bem que não se move e uma vida que talvez também tenha parado de se mover.


Angela muda a cor das paredes, troca os objetos de lugar, cria novas combinações. Contudo, o apartamento continua sendo o apartamento herdado, um quinto personagem da trama, assim como o casamento continua organizado pelas mesmas posições: Joe como aquele que ironiza e recua, Angela como aquela que tenta movimentar o que parece parado.


Podemos pensar, então, que O Convite aborda de forma sutil os perigos da imobilidade. A frase de Wilde, nesse ponto, ganha uma leitura menos óbvia. Permanecer apaixonado talvez não signifique trocar incessantemente de objeto, mas não tratar o outro, a relação e a própria vida como bens definitivamente adquiridos.


Assim como Oscar Wilde, o filme de Olivia é sensacional porque, através da comédia do desconforto e dos costumes, consegue revestir feridas antigas com discussões sobre vinho, tinta de parede, sexo do andar de cima.


Neurose do vizinho e neurose condominial


O vizinho é uma figura psicanaliticamente privilegiada. É um estranho que vive perto demais. Talvez existam, além das neuroses familiares, neuroses condominiais. As pessoas se aproximam pela lateral, esbarram nas defesas umas das outras, conseguem se ver e voltam rapidamente a se esconder.


Em O Convite, a neurose condominial começa quando o gozo do outro atravessa a parede. Há ainda uma versão do que em psicanálise Freud chamou de “cena primária”. Joe e Angela escutam, através do teto, uma sexualidade da qual não participam.


O modo como os espaços domésticos são ocupados pode figurar a organização inconsciente dos vínculos. Com frequência, na experiência da escuta clínica, observamos que a casa, os cômodos, portas, corredores e arquiteturas podem representar o corpo psíquico familiar ou cojugal e revelar fantasias, defesas e impasses. O movimento mais importante do filme ocorre quando Piña e Hawk deixam de ser sons e descem para a sala de jantar.


A sala torna-se então uma espécie de aparelho psíquico grupal. Já não existem apenas quatro psiquismos independentes nem somente dois casais. Forma-se uma realidade psíquica provisória. A teoria psicanalítica de grupo chama de de interfantasmatização, uma palavra esquisita para designar o momento em que o inconsciente de um começa a participar do inconsciente do outro e vice-versa.


O quinto elemento


No encontro entre analista e paciente, forma-se algo que é criado pelos dois, mas que não pertence de maneira exclusiva a nenhum deles. Em O Convite, poderíamos talvez falar, cometendo certa liberdade conceitual, de um “quinto”: uma experiência grupal que passa a produzir seus próprios movimentos. Cada personagem leva algo para a sala e sai com uma experiência que não poderia ter criado sozinho.


A proposta de Piña e Hawk obriga Joe e Angela a imaginar vidas que não viveram. Não se trata somente de outros parceiros sexuais, mas de outros eus possíveis: Angela desejante, Joe arriscado, Angela observada por uma mulher, Joe não aprisionado na posição de marido ressentido. Em alguns minutos, ninguém sabe exatamente quem será, e daí a excitação nasce.

O verdadeiro convite do filme não é somente para o sexo, portanto. É para que cada personagem abandone, por alguns instantes, a identidade construída.

 
 
 

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