Resenha psicanalítica de "Os Imortais" (Paulliny Tort)
- Rafael Santos
- há 2 dias
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Publicado pela Editora Fósforo, Os imortais, de Paulliny Tort, acompanha um clã neandertal que atravessa um território hostil, pressionado pela fome, pelas doenças (epidemias, feridas de combates) e pelas mudanças de clima. Após um confronto com um grupo de Homo sapiens, uma bebê sapiens é acolhida pelo clã e, à medida que cresce entre os neandertais, passa a ocupar o centro da narrativa.
Em um exercício muito criativo, a autora se interessa pelo momento enigmático em que já existem ferramentas, alguma linguagem, organização social e formas de pensamento, mas ainda não existe a civilização histórica como conhecemos hoje. Uma ideia que parece uma baliza no livro é a de que os afetos como luto, apego, dor e cuidado não pertencem exclusivamente ao Homo sapiens.
Essa concepção distancia de um modo bem interessante o romance de alguns pressupostos de Freud em Totem e tabu. Freud frequentemente trata os povos chamados “primitivos” como representantes de uma etapa infantil da humanidade. Paulliny tenta imaginar os neandertais como sujeitos completos, ainda que diferentes de nós.
O romance tem um narrador em terceira pessoa, externo à história. Ele não participa dos acontecimentos, mas entra na percepção, nas lembranças, nos medos e nos sonhos das personagens. Isso aproxima o leitor de uma consciência pré-histórica imaginada sem transformar o livro em primeira pessoa. Não há uso de aspas talvez porque o romance evita fingir que consegue transcrever literalmente uma língua neandertal e Os Imortais trabalha justamente com a impossibilidade de saber quais palavras aquelas pessoas possuíam, como era sua gramática e até que ponto uma mensagem dependia de voz, gesto, expressão facial ou movimento corporal.
No lugar de colocar personagens pré-históricos conversando como brasileiros contemporâneos fantasiados de neandertais, uma certa zona de indeterminação se mantém. Esse jogo é sofisticado porque Paulliny tenta representar uma experiência humana para a qual não temos acesso direto e, ao mesmo tempo, se arrisca porque ela só dispõe do português contemporâneo e suas ideias de indivíduo, identidade, intenção, culpa, trauma, luto etc.
Continuidade
De certa maneira, o livro parece supor que medo, apego, luto, desejo, ciúme, vergonha, curiosidade, raiva, ternura, rivalidade e necessidade de reconhecimento são anteriores às palavras que usamos para explicá-los. Outra ruptura está na separação mais compartimentalizada entre natureza e cultura, corpo e mente, sonho e realidade, humano e animal, técnica e religião. O Fogo é ao mesmo tempo fonte térmica, cura e presença sagrada. O cavalo pode ser caça, alimento, mas também um certo modelo de existir.
O romance também imagina uma espécie de moralidade anterior ao vocabulário moral. A diferença entre as espécies não coincide com uma escala moral em que nós ocuparíamos naturalmente o ponto mais alto. Os Imortais parece questionar a percepção antropocêntrica de que o mundo teria sido feito para o triunfo inevitável de nossa espécie.
Palavras atuais são usadas para alcançar afetos antigos, enquanto a forma narrativa enfraquece algumas características da subjetividade moderna: o nome próprio, o diálogo plenamente transcrito, a explicação psicológica direta, a separação entre pensamento e corpo e a autonomia absoluta do indivíduo. Já a continuidade está na matéria afetiva: medo, cuidado, desejo, perda, rivalidade, pertencimento e imaginação.
Refeição totêmica
Não que tenha sido uma intenção da autora, mas poderíamos fazer paralelos com o Totem e tabu de Freud, que deve ser lido como um mito teórico freudiano sobre a origem da lei, da culpa e da cultura.
Em Os imortais, o Fogo ocupa uma posição próxima à do tabu: é indispensável à sobrevivência, cercado de proibições e ligado a uma autoridade cuja origem se perde no tempo. Os mortos continuam presentes no Sonho, exigem ritos e permanecem agindo sobre os vivos. Os nomes de Homem, Mulher e Velha sobrevivem às pessoas que os ocupam, como se a função social fosse mais duradoura que o indivíduo. Há ainda a incorporação simbólica dos animais caçados e, no final, a cena em que o corpo do Homem é transformado em alimento coletivo, que inevitavelmente lembra a refeição totêmica imaginada por Freud.
O romance, porém, não tenta necessariamente confirmar a hipótese freudiana nem reproduz a horda primeva. Ele trabalha literariamente com problemas semelhantes: como a violência se converte em rito, como a morte produz memória e proibição, e como o grupo transforma seus medos, desejos e perdas em uma ordem comum.
Em obras como Totem e tabu (1912–1913), Psicologia das massas e análise do eu (1921), O mal-estar na civilização (1930) e Moisés e o monoteísmo (1939), Freud tentou estender o modelo clínico à origem da sociedade, da culpa, do tabu e da religião. Suas narrativas sobre horda primeva, parricídio original e transmissão filogenética devem ser lidas como construções especulativas da antropologia do início do século XX, não como reconstruções arqueológicas hoje aceitas.
No contexto psicológico e psicanalítico, correntes relacionais e do desenvolvimento deslocaram parte da ênfase de conteúdos reprimidos para padrões implícitos de interação. Daniel Stern e colaboradores, por exemplo, propuseram o “conhecimento relacional implícito”: modos procedurais de estar com os outros que se formam nas relações e não precisam ser convertidos em narrativa consciente. Alterações nesses padrões podem ocorrer por novas experiências relacionais, não apenas por interpretação verbal.
As feridas narcísicas
Freud descreveu três grandes golpes sofridos pelo narcisismo humano: Copérnico: a Terra não ocupa o centro do universo. Darwin: o ser humano não é uma criação separada dos animais. Freud: o eu não governa completamente sua própria vida psíquica.
Em Os imortais, a ferida predominante é a darwiniana. No romance não há oposição entre a animalidade como o oposto degradante da humanidade. Fome, sexualidade, medo, cuidado, rivalidade e dependência corporal não desaparecem quando surge a cultura, mas sim são a matéria em que cultura, moralidade e linguagem se formam.
Mas Paulliny radicaliza a ferida de Darwin. O golpe já não consiste somente em admitir que pertencemos ao mundo animal. Consiste em admitir que o Homo sapiens não possui sozinho o direito de representar o humano. Os neandertais são colocados no centro da narrativa. São eles que possuem interioridade, parentes, memória, religião, técnica, culpa, hesitação moral e linguagem. Os sapiens entram inicialmente como seres estranhos, compridos, frágeis e “meio pássaros”. O romance retira nossa espécie da posição de medida universal: "Foi a Velha de então, predecessora da Velha de hoje, quem contou depois, com as palavras e os gestos possíveis, que aquele povo era meio pássaro, que não honravam o Fogo e vinha das terras do sul. Eram estrangeiros".
Por isso, dá para falar numa quarta ferida, como interpretação do livro: o Homo sapiens não foi a única humanidade possível, não surgiu isolado e sua sobrevivência não comprova superioridade moral ou psíquica. Há ainda uma ferida do sobrevivente: nós, sapiens atuais, tendemos a olhar para o passado como se nossa permanência provasse que éramos melhores.
O antigo contraste entre um neandertal biologicamente robusto, mas cognitivamente rudimentar e um Homo sapiens dotado de linguagem e sociabilidade superior não é sustentado pelo conjunto atual das evidências. Culturalmente, práticas antes tratadas como monopólio de nossa espécie aparecem em formas graduais e descontínuas em outros hominínios. Nesse sentido restrito, a introgressão genética favorece a imagem de uma “cripta” corporal (para usar um termo dos psicanalistas Nicolas Abraham e Maria Torok): algo do grupo desaparecido permanece em nós sem ter sido reconhecido durante a maior parte da história.
Tornar-se pedra
Dois trechos do livro me chamaram bastante atenção. Um deles é esse: "Se se apiedar do estrangeiro, falhará. Se sentir a dor dos outros, falhará. Agora ele não é um homem, é o clã. Sua vontade não é a vontade de um homem, é a vontade do clã". Isso torna a violência do livro mais perturbadora, pois está falando de uma necessidade de limitação deliberada da empatia. “Agora ele não é um homem, é o clã” mostra ainda uma espécie de dissolução do indivíduo no coletivo.
Um segundo trecho desloca o romance do plano antropológico e político para uma reflexão sobre vida: ""Os homens, quando envelhecem, começam a se parecer com as tartarugas e as tartarugas, quando velhas, começam a se parecer com as pedras. Tudo é pedra, ao fim e ao cabo". Ela aparece quando o Homem já está se afastando das obrigações do clã e passa a se ocupar de perguntas sobre animais, pedras, estrelas e o mar. Ao mesmo tempo, “tudo é pedra” parece ajudar a entender o título Os imortais. Os indivíduos morrem, mas a matéria continua.
No romance, a imortalidade também aparece como permanência dos mortos na memória, transmissão de nomes e funções, continuidade das técnicas e sobrevivência de uma humanidade desaparecida dentro de outra. O homem se dissolve no chã. O homem se dissolve na natureza.



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