Resenha psicanalítica de "Valor Sentimental" (2025)
- Rafael Santos
- 3 de jan.
- 6 min de leitura

O drama Valor Sentimental marcou o calendário cinematográfico de 2025. Dirigido pelo norueguês Joachim Trier, o filme apresenta personagens que tentam encontrar significado entre traumas passados e a esperança de reconciliação. As irmãs Nora e Agnes voltam à casa de infância após a morte da mãe. Lá, reencontram o pai distante, Gustav, um diretor de cinema que espera filmar seu retorno artístico na mesma casa onde uma infância dolorosa aconteceu.
A psicanálise mostra como traumas, fantasias e segredos não elaborados podem atravessar gerações: por isso a análise abordará como a família Borg encarna essas teorias e quais lições sobre vínculos familiares o filme nos oferece.
O retorno de Gustav à casa da família coincide com o luto pela mãe e serve como catalisador para que mágoas antigas venham à tona. Nora (Renate Reinsve) é a filha mais velha e atriz de teatro. Sua ansiedade e autossabotagem se acentuam ao reviver a ausência paterna. Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas), historiadora, construiu uma vida aparentemente estável, mas assume o papel de mediadora entre pai e irmã. Gustav (Stellan Skarsgård) é um cineasta arrogante e egocêntrico, mais comprometido com a arte que com as filhas. A atriz americana Rachel Kemp (Elle Fanning), convidada para substituir Nora no filme de Gustav, funciona como elemento externo que ajuda a família a confrontar suas feridas.
O filme alterna cenas do presente com flashbacks e inclui um “filme dentro do filme” que recria a história da família. Ao longo da narrativa, a casa onde tudo se passa ganha simbolismo: torna‑se guardiã de memórias, lugar de sofrimento e personagem silenciosa.
A transmissão psíquica transgeracional é um conceito desenvolvido inicialmente na teoria sistêmica e familiar e posteriormente incorporado pelos psicanalistas. A transgeracionalidade tenta compreender como o mundo representacional dos indivíduos de uma geração influencia o comportamento das gerações seguintes e por onde se dão os fenômenos de transmissão.
A literatura psicanalítica frisa que o trauma não se restringe à geração que o vivenciou. O trauma, definido como vivência que supera a capacidade representacional do sujeito, provoca perturbações duradouras e corresponde a um afluxo excessivo de excitações que não pode ser descarregado ou simbolizado. Quando não há simbolização, o material traumático é transmitido em “estado bruto” para a geração seguinte, mantendo‑se como um segredo ou fantasma que ecoa no inconsciente dos descendentes.
No filme, a casa da família Borg é mais que cenário; torna‑se um símbolo da transmissão psíquica. Essa residência lembra a “cripta” descrita por Abraham e Torok — um espaço psíquico onde conteúdos traumáticos não elaborados permanecem ocultos. Nora e Agnes reagem de formas distintas: Nora canaliza a raiva e a ansiedade na carreira, mas carrega uma estado constante de ansiedade que a leva à autossabotagem. Agnes tenta cuidar de todos, revivendo o papel de cuidadora da mãe.
Nora não sabe lidar com a tentativa do pai de transformar sua vida em roteiro. As filhas tiveram de construir suas vidas sem a presença paterna. Gustav tenta se reconciliar através da arte: uma estratégia coerente com a noção de que a simbolização pode interromper a transmissão traumática. A história dos Borg mostra como traumas não elaborados, segredos e emoções silenciadas se perpetuam.
O "valor sentimental" não se restringe ao valor emocional do momento, mas inclui a história inteira herdada do passado, incorporada ao corpo e comprimida em imagens. O filme dramatiza isso com a casa e os objetos. Quando as irmãs encontram uma velha jarra, Agnes diz que precisam separar apenas objetos com “valor sentimental” e Nora, que antes desprezara o vaso, logo o reivindica, como se o objeto carregasse um fragmento do passado e dos vínculos familiares. Quando o vaso vira objeto de briga, não é sobre cerâmica: é sobre quem tem direito ao passado, quem “leva” a mãe, quem decide o que vale ser preservado. O título se refere, assim, à força dos afetos, lembranças e traumas que os objetos e espaços carregam.
Gustav parece só conseguir expor a alma através da arte. Nora, por sua vez, sofre de medo do palco e leva sua vulnerabilidade a cada performance, quase indo até o limite. Apesar das diferenças, Nora e Agnes mantêm uma cumplicidade silenciosa. Agnes confessa que Nora a fazia sentir-se segura e Nora admite que se sentia isolada por ter que cuidar da irmã sem que ninguém cuidasse dela. Esse momento resume sua relação: Nora assumiu o papel de mãe substituta, enquanto Agnes ocupou o lugar de criança protegida.
Agnes, aliás, já participou de um filme de Gustav, mas atualmente vive uma vida tranquila. A dinâmica com Agnes é menos explosiva do que com Nora: ela está disposta a ouvir o pai, embora também carregue ressentimentos. Ainda assim, a aproximação de Gustav se dá mais pela presença da neta e pelo cinema do que por conversas íntimas. Por ser historiadora, Agnes tende a olhar para o passado com curiosidade e compaixão; ela pesquisa a tortura sofrida pela avó na Segunda Guerra e tenta compreender as origens do trauma familiar. Assim, ela demonstra maior compreensão das motivações do pai e da força dos eventos transgeracionais.
Ao invés de pedir perdão, Gustav escreve um roteiro e tenta filmar sua história. Na prática, ele tenta compensar sua incapacidade de falar com as filhas criando um filme no qual as dirige e revisita a história da família, misturando vida e ficção. Isso o torna um artista sensível e, ao mesmo tempo, um pai emocionalmente vulnerável: contradição que o filme explora.
O diretor de Valor Sentimental mescla o filme‑dentro‑do‑filme, o filme em si e as peças teatrais de Nora em um estudo da técnica cinematográfica. A metalinguagem não é só um exercício estilístico, mas um mecanismo de elaboração psíquica: ao ver a própria história encenada, as personagens tornam‑se espectadoras de seus traumas e podem simbolizá‑los
Ao mostrar que cada membro da família enxerga a história de forma diferente e que a verdade é construída por múltiplas narrativas, a metalinguagem também evidencia que não existe um relato definitivo sobre a família. Nora e Agnes, por exemplo, guardam percepções diferentes do mesmo espaço.
Alguns momentos do filme mostram que mesmo famílias dilaceradas têm pontos de conexão. Nessa perspectiva, os Borg continuam sendo família apesar das rupturas, pois compartilham memórias, traumas e um espaço psíquico comum.
A psicanálise vê a família não apenas como um conjunto de indivíduos, mas como um aparelho psíquico. Os pais transmitem consciente e inconscientemente a capacidade de transformar experiências sensoriais e emocionais em elementos representáveis.
Rachel Kemp (Elle Fanning) aparece como um evento externo que invade o drama íntimo: ela se interessa por Gustav e seu trabalho em um festival, aceita o papel que Nora recusou e vai parar na casa da família enquanto as irmãs lidam com os objetos e a morte da mãe. Gustav, em muitos momentos, parece tentar se aproximar de Rachel como uma filha. A presença dela evidencia que, para Gustav, a via de aproximação passa por “dirigir” pessoas — e isso dói especialmente em Nora (que vê a intimidade virar uma escolha de casting).
Rachel, uma atriz com o estereótipo hollywoodiano, mas sensível ao seu trabalho, tenta entender a tristeza “de dentro”, procura Nora, pede orientação e, sem querer, faz circular afetos que estavam empedrados na família. Quando a intimidade com a filha falha, Gustav recorre a uma mediação “profissional” (uma atriz) para dizer o indizível. É uma solução estética, mas também uma defesa: aproxima sem se expor diretamente.
A casa também é um personagem importante do filme. O filme literalmente apresenta a casa como personagem: no prólogo, uma criança imagina a casa sentindo dor quando a janela bate, sofrendo com silêncio ou cheio de vida. A casa vira um corpo: lugar de ruídos, silêncios e afetos.
Os filmes que Gustav dão de presente ao seu neto é um ato de afeto, mas mal calibrado: mostra a dificuldade dele de ler a idade, o momento e a necessidade do outro. O que ele transmite ao neto não é só um filme; é uma visão de mundo: “a vida é dura, a arte é dura, então é por aí”. É uma herança psíquica embalada como presente.
Com relação ao DVD de Irreversível, também podemos dizer que Valor Sentimental também gira em torno de danos e ausências que não se desfazem. O o máximo que se faz é elaborar, reposicionar. Gustav volta tarde: as filhas cresceram, o luto já aconteceu. A casa guarda essas camadas.
Já quanto ao DVD de Professora de Piano, Valor Sentimental também é obcecado por atuação e por como a intimidade vira cena — às vezes como aproximação, às vezes como invasão.




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