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Resenha psicanalítica de "Trilogia de Copenhagen" (Tove Ditlevsen)


Tove Ditlevsen é a autora e narradora em primeira pessoa de Trilogia de Copenhagen. Ela se apresenta como uma menina nascida em 14 de dezembro de 1918, criada em Vesterbro, em Copenhagen. O livro se divide em três partes que formam uma narrativa autobiográfica: Infância, Juventude e Dependência. Na Infância, predomina o recorte do núcleo familiar, do bairro e das primeiras experiências que vão organizando o olhar da menina. Na Juventude, o foco se desloca para a passagem da escola para o trabalho. Já em Dependência, a narrativa se concentra na vida adulta e no entrelaçamento entre cotidiano, escrita e uso de substâncias.


No livro, Tove Ditlevsen constrói um relato autobiográfico de formação em que a vocação literária não aparece como “talento” abstrato, mas como uma necessidade psíquica que nasce e se endurece dentro de um cenário social concreto. No início, é no atrito entre destino social (classe, gênero, expectativas) e desejo íntimo (a escrita) que o livro ganha sua tensão principal. Um dos grandes valorosos do texto de Tove é a franqueza de mostrar como uma vida pode depender de pequenos dispositivos de confirmação simbólica para não se desintegrar.


Em Infância, Ditlevsen fixa o “chão” de onde tudo vai partir: a marca de classe e de bairro, a atmosfera doméstica e, sobretudo, uma genealogia do desejo de escrever. Nesse ambiente, a escrita nasce como refúgio e como segredo. Juventude retoma exatamente esses mesmos elementos (vergonha, segredo, desejo), mas desloca o palco: sai da escola e é empurrada para a vida adulta. Dependência parece um “tema novo” colocado no fim, mas prolonga e radicaliza a lógica das duas primeiras partes: o que era segredo (a escrita) permanece secreto mesmo quando ela já circula entre “os famosos”. Paralelamente, surge outro segredo, agora químico, que também promete alívio e reorganização do sentir.

"Como na infância, escrever é, para mim, algo secreto e proibido, extremamente vergonhoso, algo que se faz às escondidas num cantinho quando ninguém está olhando."

Durante a leitura do livro, me lembrei bastante as ideias do psicanalista Christopher Bollas, sobre como um self vai tentando “encontrar forma” por meio de objetos e encontros (e, no fim, sobre quando essa busca por transformação é capturada por um atalho químico). Em certo sentido, dá para entender a ideia de Bollas de objeto transformacional como o que reorganiza o mundo interno do sujeito e a droga pode imitar a função desse objeto de transformação instantânea.

"Eu havia entregado minha coletânea de contos e por ora não tinha vontade nenhuma de escrever. Passava praticamente o tempo todo pensando em como convencer Carl a me dar petidina de novo. Lembrei que ele havia dito que era um analgésico. Que parte do corpo eu diria que estava doendo?"

Pelo que o próprio texto mostra, a dependência em Tove aparece como uma solução psíquica (ruim, mas eficaz no curto prazo) para estados internos que o livro descreve como intensos, recorrentes e difíceis de sustentar sem um “objeto” que mude o humor, o corpo, a sensação de estar viva. Psicologicamente, a dependência aparece aí como substituto de um organizador interno: quando falta o “objeto-escrita” para ocupar, conter e transformar, entra o “objeto-químico”, que promete transformação mais rápida.


Além disso,  a escrita no livro não é só produção literária, mas uma espécie sobrevivência psíquica. O desejo de escrever aparece menos como “vontade” consciente e mais como expressão de uma pulsão do destino, para usar um conceito de Bollas. Uma força de vida voltada a dar forma a algo interno. Na leitura desse psicanalista, a pulsão não vai atrás somente de descarga, mas também de forma. Não apenas satisfação, mas também expressão e um certo compromisso estético. Uma urgência de traduzir um idioma interno em expressão. Um caminho (atividade, ideia) que o sujeito busca para cumprir seu destino, isto é, nesse contexto, para manifestar o próprio idioma do self.

"Consegui pegar uma pontinha do mundo pelo qual anseio e não pretendo soltá-la. Ponho o guardanapo na bolsa e dirijo um sorriso misterioso a minha amiga. Vou para casa datilografar, anuncio."

Ao mesmo tempo, o livro mostra o quanto esse destino pode nascer ferido: o caderno é ridicularizado pelo irmão e a vergonha aparece como risco de exposição do que é mais vivo e íntimo. Outro eixo ao longo da Trilogia de Copenhagen é a opressão do patriarcado enquanto uma infraestrutura na vida da personagem-autora: ele define o que é uma “mulher correta”, quais trabalhos cabem, que tipo de desejo é permitido e até com que grau de legitimidade ela pode existir como sujeito que escreve.


Isso começa cedo, na passagem para a vida adulta, quando a expectativa familiar e social empurra Tove para a aprendizagem do doméstico como destino para servir a um futuro marido. Quando a autora leva poemas a um editor, o reconhecimento do texto vem misturado a um gesto corporal invasivo. O próprio ato de escrever, para ela, é empurrado para a clandestinidade psíquica.


No livro, os relacionamentos da escritora são narrados como uma sequência de vínculos atravessados pela lógica da dependência, de modo que amor e sobrevivência psíquica às vezes se confundem. Campos onde se jogam simultaneamente reconhecimento, apagamento e regulação do sofrimento.

"A infância deveria durar até meus catorze anos, mas o que eu podia fazer se ela me escapava antes do tempo?".

 
 
 

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