Ignacio Matte Blanco e a Teoria Bi-lógica
- Rafael Santos
- há 15 horas
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No começo do seu livro "The unconscious as infinite sets" (1975), Ignacio Matte Blanco colocou um anjo na entrada. Trata-se de um mosaico bizantino em que as asas parecem pertencer a vários pássaros comprimidos dentro de um único corpo. As formas se atravessam, os volumes parecem ocupar o mesmo lugar e aquilo que deveria estar separado surge reunido em uma só figura. Em contraste, o rosto do anjo permanece delimitado, nítido, quase geométrico. Matte Blanco viu nessa imagem uma representação intuitiva dos dois modos pelos quais a mente humana funciona. Um modo que separa, organiza e distingue. Outro que reúne, sobrepõe e trata muitas coisas como se fossem uma só.
Essa imagem pode parecer distante de uma sessão de análise, mas não é. Uma pessoa diz que o namorado demorou duas horas para responder a uma mensagem. Até aí, temos um acontecimento delimitado: uma pessoa, uma mensagem e duas horas de espera. Alguns minutos depois, ela diz algo como "ninguém nunca me escolhe". O namorado se tornou todas as pessoas, duas horas se tornaram toda a história e uma mensagem não respondida passou a representar todas as experiências de abandono. A parte adquiriu o peso do todo.
Uma conversa comum poderia tentar corrigir o exagero. “Não é verdade que ninguém escolhe você”. Mas um trabalho psicanalítico precisaria fazer outra pergunta: que funcionamento psíquico permite que um episódio singular contenha, naquele instante, a totalidade da vida emocional de alguém?
Ignacio Matte Blanco nasceu em Santiago do Chile, em 1908. Formou-se em Medicina, especializou-se em psiquiatria e iniciou sua carreira acadêmica nas áreas de bioquímica e fisiologia. Ainda no Chile, começou sua análise com Fernando Allende Navarro, um dos pioneiros da psicanálise no país.
Em 1933, mudou-se para Londres. Trabalhou com fisiologia na University College London, especializou-se em neuropsiquiatria no Maudsley Hospital e realizou sua formação no Institute of Psychoanalysis, ligado à Sociedade Britânica de Psicanálise. Durante esse período, teve contato com uma das comunidades psicanalíticas mais importantes do século XX e realizou supervisões com Anna Freud e James Strachey. Tornou-se membro da instituição em 1938.
Em 1940, foi para os Estados Unidos, onde trabalhou em hospitais e se tornou professor de psiquiatria na Duke University. Foi ali que ocorreu um encontro decisivo para sua obra: Matte Blanco frequentou os seminários do matemático Richard Courant e aprofundou seus estudos sobre lógica matemática e teoria dos conjuntos. Courant teria encorajado suas primeiras tentativas de aproximar a matemática do funcionamento inconsciente.
A matemática interessava porque oferecia uma linguagem rigorosa para descrever relações que a psicologia costumava tratar de forma vaga. Em 1943, retornou ao Chile e participou da fundação da Sociedade Chilena de Psicanálise. Mais tarde, assumiu cargos de professor de psiquiatria e diretor de clínica psiquiátrica. Em 1966, estabeleceu-se na Itália, onde foi professor de psicopatologia e analista didata da Sociedade Psicanalítica Italiana. Sua trajetória atravessou, portanto, quatro ambientes intelectuais distintos: a medicina universitária chilena, a psicanálise britânica, a psiquiatria norte-americana e o movimento psicanalítico italiano.
O problema que Freud deixou aberto
Freud descreveu o inconsciente como um sistema no qual não vigoram as regras habituais do pensamento consciente. Nele, não há propriamente passagem do tempo, negação, contradição ou ordenação estável entre os acontecimentos. Uma pessoa pode amar e odiar o mesmo objeto. Alguém morto pode continuar vivo. Uma lembrança infantil pode ser experimentada como se estivesse ocorrendo agora. Várias pessoas podem aparecer condensadas em uma única figura onírica.
A tradição psicanalítica reconheceu essas características, mas frequentemente parou na descrição. Dizia-se que o inconsciente era regido pelo processo primário, que condensava, deslocava e substituía a realidade externa pela realidade psíquica. A teoria mostrava o que o inconsciente fazia, sem esclarecer plenamente por que ele funcionava dessa maneira.
Dizer que o inconsciente não conhece a contradição ainda não explica qual operação torna duas afirmações incompatíveis simultaneamente aceitáveis. Dizer que um sonho condensa várias pessoas não explica como a mente pode tratar indivíduos diferentes como equivalentes. Dizer que o inconsciente é atemporal não revela por que passado e presente perdem sua ordem.
Havia também um problema no emprego de palavras como “irracional” ou "caótico". Se o inconsciente fosse puro caos, nenhuma interpretação seria possível. Não existiriam repetições reconhecíveis, formações de compromisso, estruturas transferenciais ou padrões sintomáticos. O próprio trabalho analítico seria uma tentativa de extrair sentido de algo que, por definição, não possuiria sentido algum.
Matte Blanco, ao invés de concluir que o inconsciente não possui lógica, propôs que ele opera segundo uma lógica diferente daquela que organiza o pensamento consciente. Freud teria descoberto não apenas um conjunto de conteúdos escondidos, mas outro modo de organização da experiência.
A mente não encontra apenas coisas: ela constrói classes
Para Matte Blanco, a mente está permanentemente classificando. Nós não conhecemos uma coisa isoladamente. Conhecemos suas qualidades, suas diferenças e suas relações com outras coisas. Ao reconhecer uma cadeira, por exemplo, não apreendemos apenas aquele objeto diante de nós, nós a situamos na classe das cadeiras, na classe dos móveis, na classe dos objetos construídos, na classe das coisas sobre as quais se pode sentar.
O mesmo acontece com as pessoas. Alguém pode ser percebido como homem, professor, autoridade, pessoa amorosa, pessoa ameaçadora ou alguém que abandona. Cada uma dessas propriedades insere o indivíduo em determinada classe. Uma mesma pessoa pertence simultaneamente a um número enorme de conjuntos, conforme o aspecto emocionalmente destacado naquele momento.
Essa classificação é organizada por aquilo que a lógica chama de função proposicional. Em termos simples, trata-se de uma propriedade que diferentes elementos podem compartilhar. Por exemplo, “x me protege” forma a classe das pessoas que me protegem. "X me rejeita” forma a classe das pessoas que me rejeitam.
A mente consciente consegue reconhecer que pessoas diferentes podem compartilhar uma característica sem deixar de ser indivíduos distintos. Uma mãe, uma professora e uma analista podem pertencer à classe das pessoas que ensinaram algo, mas continuo sabendo que são três pessoas diferentes. O inconsciente, porém, pode enfraquecer essa distinção. Em certos níveis da experiência, ele não apenas percebe que os indivíduos pertencem à mesma classe: passa a tratá-los como equivalentes. O analista deixa de ser apenas o analista. Por pertencer à classe “pessoa de quem dependo”, pode adquirir propriedades da mãe, do pai, do parceiro ou de qualquer outro integrante emocionalmente relevante dessa classe. Esse é o fundamento lógico da transferência.
O princípio de generalização
O primeiro grande princípio formulado por Matte Blanco é o princípio de generalização. Por esse princípio, o inconsciente trata uma coisa individual como membro de uma classe. Em seguida, trata essa classe como parte de uma classe mais ampla, que pode ser incluída em outra ainda mais geral, e assim sucessivamente.
Uma pessoa que critica o paciente pode entrar na classe “pessoas que me desaprovam”. Essa classe pode ser incluída em “pessoas que não me aceitam”. Depois, em “pessoas que podem me excluir”. Finalmente, a cadeia pode alcançar algo próximo de “o mundo que não tem lugar para mim”. O acontecimento inicial não desaparece, mas passa a carregar uma série potencialmente infinita de pertencimentos.
A generalização inconsciente não segue todas as direções possíveis. Ela seleciona as propriedades emocionalmente significativas. Diante de um chefe que fala de forma ríspida, a mente poderia destacar que ele usa camisa azul, que trabalha no mesmo prédio ou que nasceu na mesma cidade. Mas, para determinado sujeito, pode selecionar principalmente a função “homem poderoso que me humilha”.
Nesse momento, o chefe atual começa a se aproximar de professores, pais, irmãos, antigos parceiros e outras figuras reunidas pela mesma função. A singularidade do homem diante do paciente fica recoberta pela classe à qual ele foi incorporado.
É por isso que certas reações parecem desproporcionais quando observadas apenas a partir da situação presente. A pessoa não está respondendo somente àquele chefe. Está respondendo, em alguma medida, a toda a classe.
A lógica assimétrica e simétrica
O segundo passo exige compreender o que Matte Blanco chama de assimetria. A lógica assimétrica é aquela que distingue os elementos e preserva a direção das relações. Ela permite compreender, por exemplo, que A vem antes de B, A está dentro de B, A é maior do que B, A é causa de B, A é parte de B, A é pai de B etc.
Quando invertemos essas relações, o significado muda. Se João é pai de Pedro, Pedro não é pai de João: é filho de João. Se uma mão faz parte de um corpo, o corpo não faz parte da mão. Se um acontecimento veio antes de outro, não pode, no mesmo sentido, ter vindo depois dele.
Esse exemplo está no capítulo 3 do livro The Unconscious as Infinite Sets: An Essay in Bi-Logic, de Ignacio Matte Blanco. Essa lógica sustenta a linguagem ordinária, a organização temporal, a delimitação dos objetos, a ciência, a vida prática e a consciência de si. Para pensar, precisamos separar alguma coisa de outra coisa. Precisamos reconhecer um dentro e um fora, um antes e um depois, uma afirmação e sua negação. A assimetria cria diferenças.
Ela permite dizer: “Este homem me lembra meu pai, mas não é meu pai”; “o que aconteceu hoje se parece com algo antigo, mas aconteceu hoje”; “estou com medo, mas o medo não prova que exista um perigo”; “uma parte da minha vida fracassou, mas isso não significa que toda a minha vida seja um fracasso”.
A lógica simétrica realiza o movimento oposto. Ela trata a relação inversa como se fosse idêntica à relação original.
Se A mantém determinada relação com B, o funcionamento simétrico trata B como se mantivesse a mesma relação com A. Assim, no exemplo formal utilizado por Matte Blanco, se João é pai de Pedro, o sistema inconsciente pode tratar Pedro como pai de João. O que é absurdo para a lógica consciente torna-se possível em um modo de funcionamento que não preserva a direção das relações.
Isso não significa que uma pessoa necessariamente pense, de forma consciente, que seu filho biológico seja seu pai. A simetrização aparece de maneiras mais sutis. Um pai pode sentir-se infantilmente dependente do filho, pode exigir que o filho o proteja, pode experimentar a autonomia do filho como abandono, pode tratar o filho como responsável por sua estabilidade emocional. A relação geracional continua assimétrica na realidade externa, mas pode se tornar simétrica na experiência emocional.
Outro exemplo ocorre na projeção. Se sinto ódio de alguém, posso vivenciar essa pessoa como alguém que me odeia. A relação “eu odeio você” converte-se em “você me odeia”. A direção do afeto se torna reversível.
Na identificação projetiva, esse movimento pode ficar ainda mais complexo: eu sinto algo, atribuo esse sentimento ao outro, relaciono-me com ele como se fosse dele e posso induzi-lo a ocupar a posição que inicialmente projetei.
A simetria também modifica as relações entre parte e todo. Se o braço é parte do corpo, a inversão simétrica permite tratar o corpo como parte do braço. A diferença lógica entre continente e conteúdo desaparece. A parte passa a funcionar como equivalente ao todo.
Essa propriedade aproximou Matte Blanco da teoria matemática dos conjuntos infinitos. Em um conjunto finito, a parte é menor do que o todo. Em certos conjuntos infinitos, porém, pode existir uma correspondência entre todos os elementos do conjunto e todos os elementos de uma parte dele. O conjunto dos números pares é apenas uma parte dos números naturais, mas contém tantos elementos quanto o conjunto total: ambos são infinitos.
Matte Blanco viu nessa estranha equivalência uma estrutura comparável ao funcionamento inconsciente. No inconsciente, um elemento pode representar toda a classe porque, sob simetrização, a parte e o todo deixam de ser claramente diferentes. Um erro torna-se “eu sou um fracasso”. Uma rejeição torna-se “ninguém me ama”. Uma morte torna-se “acabou a minha vida”. Uma pessoa amada torna-se “tudo para mim”. Não se trata apenas de força de expressão. Em determinado nível emocional, a pessoa pode experimentar essas frases como descrições literais de sua realidade.
A bi-lógica
Matte Blanco chamou de bi-lógica a coexistência entre os modos simétrico e assimétrico de funcionamento. Não existe, de um lado, uma mente racional completamente consciente e, do outro, uma mente inconsciente totalmente simétrica. Os dois modos se misturam em proporções variadas. Uma frase, um pensamento, um sonho ou uma ação podem preservar algumas distinções e abolir outras.
A pessoa apaixonada sabe que o parceiro é um indivíduo limitado, com uma história própria, defeitos e uma vida separada. Ao mesmo tempo, pode senti-lo como a própria encarnação da beleza, do amor e da possibilidade de felicidade. Ela sabe que aquela pessoa não é “tudo”, mas pode vivê-la como tudo. As duas afirmações coexistem. A primeira pertence predominantemente à lógica assimétrica. A segunda é atravessada pela simetria. A experiência amorosa nasce da combinação entre ambas.
A lógica simétrica, portanto, não substitui o pensamento consciente. Sem alguma assimetria, não existiriam pensamento, linguagem ou consciência. Também não é uma forma primitiva que deveria ser eliminada pelo amadurecimento. Ela permanece ativa durante toda a vida e está na base da emoção, da arte, da imaginação, da transferência e da capacidade de experimentar pertencimento.
Os estratos da experiência psíquica
Matte Blanco imaginou a mente como uma estrutura formada por inúmeros estratos, definidos pelas diferentes proporções entre simetria e assimetria. Os estratos são potencialmente infinitos, mas ele propôs cinco níveis didáticos.
No primeiro estrato, predominam objetos e relações bem delimitados. A pessoa percebe indivíduos concretos, distingue semelhanças e diferenças e organiza os acontecimentos segundo tempo, espaço e causalidade.
No segundo estrato, surgem emoções reconhecíveis em relação a indivíduos ainda diferenciados: “gosto dele”, “tenho medo dela”, “estou irritado com você”. Existe simetrização, mas a identidade dos objetos permanece preservada.
No terceiro estrato, os membros de uma classe podem começar a ser experimentados como idênticos. Uma pessoa atual adquire com mais intensidade as propriedades de outras pessoas emocionalmente equivalentes. É o território das reações transferenciais mais intensas, das experiências de abandono absoluto e de determinadas organizações limítrofes.
No quarto estrato, classes mais amplas são reunidas e simetrizadas. Propriedades muito diferentes podem se tornar equivalentes porque pertencem a uma categoria mais geral. Matte Blanco cita o exemplo de uma paciente que considerava um homem muito rico porque ele era muito alto. “Alto” e “rico” seriam reunidos pela propriedade mais ampla de possuir algo “em grande quantidade”. Nesse nível, tornam-se mais evidentes a ausência de contradição, a confusão entre realidade externa e psíquica e certas formas do pensamento psicótico.
No quinto estrato, a simetrização tende ao limite da indivisibilidade. As diferenças entre pessoas, objetos e relações desaparecem. Tudo pode ser experimentado como contido em tudo. É o modo homogêneo e indivisível: uma unidade sem dentro e fora, parte e todo, eu e outro.
Esses níveis não são gavetas. A mesma pessoa pode funcionar em estratos diferentes no mesmo dia ou no mesmo minuto. Pode falar de forma lógica sobre seu trabalho e, diante de uma pequena crítica, sentir-se lançada em um mundo no qual todos a rejeitam e nenhuma reparação será possível.
O sofrimento não depende apenas da presença de simetria. Ele aparece quando as relações entre os estratos se rompem, quando aquilo que poderia permanecer como experiência emocional profunda invade a percepção consciente sem tradução suficiente.
Na psicose, a equivalência pode transformar-se em identidade manifesta. A pessoa deixa de viver alguém como se fosse uma figura persecutória e passa a afirmar que as duas pessoas são efetivamente a mesma. O que normalmente permanece distribuído entre diferentes níveis sofre um curto-circuito.
O inconsciente não é apenas o que foi reprimido
Na teoria psicanalítica mais clássica, muito do que é inconsciente permanece fora da consciência porque foi reprimido. Uma representação incompatível foi afastada, mas pode retornar deformada em sonhos, sintomas e atos falhos. Matte Blanco não abandona a repressão, mas afirma que há também um inconsciente estrutural ou não reprimido.
Certas experiências não são inconscientes porque tenham sido proibidas. São inconscientes porque seu grau de simetria excede aquilo que a consciência consegue representar.
A consciência precisa estabelecer diferenças. O modo indivisível, por definição, dissolve diferenças. Não existe uma frase consciente escondida em algum lugar, aguardando ser descoberta. Existe uma forma de experiência que ainda não pode aparecer como frase.
Por isso, o trabalho analítico não consiste apenas em retirar uma censura. Consiste também em produzir uma tradução, ou um desdobramento, do modo simétrico em formas assimétricas que possam ser pensadas.
Nesse entendimento, não se trata de acender uma luz e encontrar um texto pronto. Trata-se de construir palavras para algo que, em sua forma original, não possuía palavras.
A emoção como pensamento infinito
A emoção ocupa um lugar central nessa teoria porque é uma das manifestações mais evidentes da lógica simétrica. Para Matte Blanco, uma emoção não é o contrário do pensamento. Ela possui pelo menos dois componentes: uma dimensão de sensação-sentimento e uma atividade elementar de estabelecimento de relações. Sentir medo já implica classificar alguma coisa como perigosa. Amar envolve reconhecer algo como valioso, desejável ou belo. O ódio organiza seu objeto na classe daquilo que precisa ser atacado, expulso ou destruído. A emoção é uma forma de conhecimento, embora não seja um conhecimento delimitado como uma proposição consciente. Ela tende a generalizar, maximizar e irradiar.
Quando alguém está moderadamente irritado, consegue dizer: “Fiquei incomodado com o que ele fez hoje”. Quando o ódio se intensifica, surgem expressões como “ele sempre foi assim”, “tudo nele é falso” ou “essa pessoa destruiu minha vida”. A intensidade afetiva amplia a classe, reduz as exceções e aproxima a parte do todo.
O mesmo ocorre no amor. Uma pessoa profundamente apaixonada não diz que pretende amar durante 36 meses, em determinadas circunstâncias e dentro de limites geográficos bem definidos. O amor intenso tende ao ilimitado.
Quanto maior a participação da simetria, mais o afeto adquire características do infinito. O objeto amado não possui apenas alguma beleza: torna-se toda a beleza. A pessoa odiada não cometeu apenas um ato ruim: torna-se a própria maldade.
Isso ajuda a compreender por que certos afetos parecem não possuir medida. Não é apenas que sejam muito fortes. Sua estrutura tende a eliminar os limites pelos quais poderiam ser medidos.
Paixão, trauma e luto
Na paixão, uma pessoa singular passa a condensar classes inteiras: amor, beleza, futuro, pertencimento, erotismo, salvação. A eventual perda do relacionamento não significa apenas perder aquele indivíduo. Pode significar perder todas as classes que passaram a ser representadas por ele.
É por isso que alguém pode reconhecer racionalmente que sobreviverá a uma separação e, ao mesmo tempo, senti-la como o fim do mundo. Em termos assimétricos, terminou um relacionamento. Em termos simétricos, desapareceu tudo aquilo que o relacionamento continha.
No luto, a pessoa morta também é mais do que um indivíduo. Pode representar casa, continuidade, memória, proteção, infância e futuro. Quando ela morre, cada uma dessas classes é atingida.
O tempo cronológico informa que a morte ocorreu há anos. A lógica simétrica não organiza os acontecimentos por sucessão. Para ela, aquilo que foi ainda pode ser agora. O luto não é simples recusa do calendário, é a coexistência entre uma parte da mente que reconhece a passagem do tempo e outra para a qual certas relações não deixaram de existir.
No trauma, um estímulo presente pode ser incorporado à mesma classe da situação traumática. Um tom de voz, um cheiro ou uma expressão facial não apenas lembram o acontecimento: podem fazer com que o organismo experimente o passado como presente. A assimetria que diria “aquilo ocorreu antes e isto ocorre agora” perde força.
Essa leitura não substitui as teorias específicas do trauma. Ela mostra uma operação lógica pela qual um elemento atual pode adquirir a totalidade emocional de uma experiência anterior.
Sonhos, sintomas, fantasias e metáforas
O sonho é talvez o laboratório mais evidente da bi-lógica. Uma única personagem pode ter o rosto de uma pessoa, a voz de outra e a posição afetiva de uma terceira. Lugares diferentes se misturam. Alguém é simultaneamente criança e adulto. Uma pessoa morta está viva. O sonhador assiste a uma cena e participa dela.
As duas figuras pertencem à mesma classe emocional e, naquele nível, podem ser tratadas como uma unidade. A condensação deixa de ser apenas uma curiosidade onírica e passa a ser consequência da simetrização.
O sintoma também pode condensar um conjunto. Um comportamento atual pode conter uma série de relações, fantasias, identificações e experiências corporais. Não à toa, o sintoma é frequentemente mais denso do que a explicação consciente que a pessoa oferece sobre ele.
A fantasia cria cenas nas quais classes emocionais são dramatizadas. O personagem que controla, abandona ou invade não corresponde necessariamente a uma pessoa específica. Ele pode ser uma figura composta, uma espécie de representante da classe.
A metáfora é uma operação especialmente bi-lógica. Quando alguém afirma “minha mãe é uma prisão”, sabe que a mãe não é literalmente uma construção com grades. A lógica assimétrica preserva a diferença. Ao mesmo tempo, a frase estabelece uma identidade emocional entre mãe e prisão. A lógica simétrica aproxima as duas experiências.
Por isso, a literatura e a poesia muitas vezes representam experiências inconscientes melhor do que uma explicação excessivamente literal. Elas conseguem dar alguma forma ao infinito sem destruí-lo por completo.
A linguagem delimita, mas também perde
A linguagem depende de distinções. Para formular uma frase, precisamos separar sujeito, objeto, ação, tempo e direção. Precisamos escolher uma palavra em vez de outras. A experiência inconsciente, porém, pode envolver muitas relações ao mesmo tempo. Ao ser traduzida para a linguagem, algo é inevitavelmente organizado e algo é perdido.
Dizer “estou com raiva da minha mãe” já representa uma conquista de assimetria. A frase distingue quem sente, o que sente e de quem sente. Em um nível mais simétrico, talvez houvesse apenas uma experiência corporal ilimitada, sem separação clara entre raiva, medo, mãe e eu.
A função da linguagem analítica não é esgotar a experiência. É criar distinções suficientes para que ela possa ser vivida sem invadir toda a mente.
O que essa teoria modifica na clínica
A questão deixa de ser apenas “o que este conteúdo significa?” e passa a incluir: Como essa experiência está logicamente organizada?
O analista começa a escutar quais classes foram formadas, quais indivíduos se tornaram equivalentes, quais diferenças desapareceram e qual parte adquiriu o peso do todo. Quando um paciente afirma “você não se importa comigo” porque o analista olhou para o relógio, há pelo menos dois níveis simultâneos. No nível assimétrico, houve um gesto concreto: o analista olhou o relógio. No nível simétrico, o analista pode ter sido incorporado à classe de todos aqueles que interromperam, abandonaram ou disseram ao paciente que seu tempo havia terminado.
Uma resposta puramente factual (“olhei porque a sessão está acabando”) pode estar correta e ser clinicamente inútil. Ela preserva a realidade externa, mas ignora a realidade emocional que tomou a cena. Também seria inadequado confirmar que o olhar para o relógio prova um abandono real. Isso eliminaria a assimetria e trataria a fantasia como fato. Uma intervenção possível seria: "Quando olhei para o relógio, talvez eu tenha deixado de ser apenas a pessoa que está aqui com você e tenha me tornado, por um instante, todos aqueles cujo tempo parecia acabar justamente quando você mais precisava."
A intervenção procura preservar os dois lados. O analista realmente olhou o relógio, mas o gesto adquiriu uma extensão que ultrapassa a cena presente. Introduz-se uma diferença sem desautorizar a emoção. É esse movimento que Matte Blanco chama de tradução ou desdobramento: transformar uma experiência maciça e indivisível em relações que possam ser reconhecidas, nomeadas e diferenciadas.
Essa escuta presta atenção a mudanças discretas na organização da fala. O paciente começa falando de uma pessoa e termina falando de “todo mundo”. Relata um acontecimento e conclui que sua vida inteira é assim. Descreve algo ocorrido ontem com a intensidade de algo que está acontecendo agora. Afirma odiar alguém e, minutos depois, demonstra depender profundamente dessa mesma pessoa. Diz que não sente nada enquanto produz no analista uma sensação corporal intensa.
A escuta procura reconhecer: quando o singular se transforma em universal, quando o presente contém todo o passado, quando duas pessoas passam a ocupar a mesma função, quando uma parte do corpo ou da história representa a pessoa inteira, por aí vai.
O analista não precisa traduzir tudo imediatamente. Uma interpretação prematura pode funcionar como uma imposição violenta de assimetria: divide antes que a experiência tenha encontrado um continente. Primeiro, pode ser necessário suportar a emoção, perceber sua extensão e permitir que ela apareça na transferência. Só então se introduzem diferenças.
Essa dimensão aproxima Matte Blanco de Bion. Ambos compreendem o trabalho analítico como transformação de experiências emocionais ainda não pensáveis. O analista oferece um continente que não seja tão rígido a ponto de comprimir a experiência nem tão frágil que seja destruído por ela.
Uma conversa comum tende a acompanhar o conteúdo manifesto. Procura saber o que aconteceu, quem fez o quê, se a interpretação dos fatos é razoável e qual solução pode ser encontrada. Isso não é pouco. A vida cotidiana depende dessa lógica. A escuta psicanalítica acrescenta outro objeto: a forma pela qual a mente construiu a experiência relatada.
Em uma conversa comum, a contradição costuma exigir resolução. Na escuta psicanalítica, a contradição pode ser o próprio dado. A diferença, assim, não está em falar de modo enigmático ou permanecer em silêncio. Está em escutar simultaneamente o acontecimento delimitado e o conjunto infinito que pode estar condensado nele.
Com quais autores Matte Blanco dialoga
A raiz principal de Matte Blanco é Freud. Sua teoria é uma tentativa de extrair as consequências lógicas das características atribuídas por Freud ao sistema inconsciente. Ele não abandona a metapsicologia freudiana; procura fornecer-lhe uma formulação mais unificada.
Com Melanie Klein, dialoga por meio dos conceitos de mundo interno, identificação, projeção, introjeção e identificação projetiva. Em Thinking, Feeling and Being, esse diálogo torna-se muito mais explícito. O foco deixa de estar apenas nas propriedades formais do inconsciente e se desloca para a organização das relações internas e para suas manifestações clínicas.
Bion é provavelmente sua maior proximidade. Ambos pensam a experiência emocional, os limites do pensamento, o infinito e a transformação do não pensável em algo que possa ser sonhado ou pensado. Eles chegaram a problemas semelhantes por caminhos independentes. Matte Blanco parte de Russell, da lógica das relações e dos conjuntos. Bion utiliza a matemática de forma mais metafórica e aproxima-se progressivamente da intuição e do incognoscível.
A aproximação com Ferenczi ocorre principalmente pela intersubjetividade e pelo uso clínico dos afetos do analista. Não é uma filiação teórica direta, mas existe uma convergência: os três autores levam a sério aquilo que acontece emocionalmente entre analista e paciente.
Há também interlocuções com Lacan em torno da formalização, da lógica e da matemática, embora eles tenham construído projetos muito diferentes.
A escrita de Matte Blanco combina psicanálise, filosofia, teoria dos conjuntos, lógica simbólica, geometria e reflexões sobre espaço, tempo e infinito. Matte Blanco não organizava seus casos clínicos com o mesmo sentido dramático encontrado em muitos autores psicanalíticos. Seu interesse se dirigia frequentemente à estrutura minuciosa do pensamento, não à apresentação narrativa da personalidade inteira do paciente. Para uma tradição que utiliza histórias clínicas como principal forma de demonstração, isso pode fazer sua teoria parecer afastada da vida.
A principal força de Matte Blanco está em oferecer uma explicação relativamente econômica para fenômenos que pareciam dispersos. A atemporalidade, a condensação, o deslocamento, a ausência de contradição, a substituição da realidade externa pela realidade psíquica e a equivalência entre parte e todo podem ser compreendidas a partir da generalização e da simetrização.
Sua teoria também impede que emoção e pensamento sejam colocados em uma escala evolutiva simplista. A lógica simétrica não é uma doença que a razão deveria curar. Ela constitui uma dimensão indispensável da vida humana. Outra contribuição importante é separar repressão de impossibilidade estrutural de representação. Nem tudo o que não pode ser dito está proibido. Algumas experiências ainda não encontraram diferenças internas suficientes para se converterem em pensamento. Isso amplia o alcance da análise, sobretudo diante de pacientes que não apresentam apenas conflitos entre desejos e proibições, mas dificuldades na própria formação de representações.
A matemática de Matte Blanco oferece um modelo, não uma comprovação experimental do funcionamento mental. Existe o risco de transformar uma analogia fecunda em uma ontologia rígida, como se o psiquismo fosse literalmente um sistema matemático.
O princípio de simetria também pode parecer amplo demais. Se praticamente qualquer relação pode ser simetrizada, a teoria corre o risco de explicar tudo e, por isso, não discriminar nada. O próprio Matte Blanco tentou responder a essa objeção ressaltando que a simetria sempre encontra restrições assimétricas e aparece em diferentes proporções.
Sua obra inicial dedicou atenção insuficiente à cisão e a certas organizações paranoide-esquizoides. Em seus trabalhos posteriores, principalmente em Thinking, Feeling and Being, ele passou a dialogar mais intensamente com a identificação projetiva e a teoria kleiniana. Ainda assim, autores posteriores observam que a infinitização de diferenças e assimetrias também merece consideração: não é apenas a igualdade que pode se tornar ilimitada; uma oposição entre bom e mau, amigo e inimigo, puro e impuro também pode ser intensificada infinitamente.
No trauma, sua teoria esclarece como o passado pode perder sua posição de passado. O acontecimento atual e a cena traumática pertencem à mesma classe e, sob forte simetrização, tornam-se emocionalmente indistinguíveis. Em todos esses fenômenos, o que parece “exagero” pode ser a manifestação de uma lógica na qual os limites entre indivíduo, classe, parte e todo foram reduzidos.
Sua obra mostra que o inconsciente não é uma sala escura na qual estão guardadas frases secretas. É um modo de ser no qual as distinções que sustentam o pensamento consciente perdem sua nitidez. A pessoa pode saber que o analista não é seu pai e, ainda assim, experimentá-lo como pai. Pode saber que uma separação não é a morte e senti-la como morte. A escuta psicanalítica reconhece que ambas podem ser verdadeiras em lógicas diferentes.
Referências:
GERBER, Ignácio. Caminhos da intersubjetividade: Ferenczi, Bion, Matte-Blanco. Psicologia USP, São Paulo, v. 10, n. 1, p. 141-155, 1999. DOI: 10.1590/S0103-65641999000100007.
LOMBARDI, Riccardo. Formless infinity: clinical explorations of Matte Blanco and Bion. Tradução de Karen Christenfeld, Gina Atkinson, Andrea Sabbadini e Philip Slotkin. Hove; New York: Routledge, 2016.
MATTE BLANCO, Ignacio. The unconscious as infinite sets: an essay in bi-logic. New foreword by Eric Rayner. Revised edition. London: Karnac Books, 1998. Trabalho originalmente publicado por Gerald Duckworth em 1975.
MATTE BLANCO, Ignacio. Thinking, feeling, and being: clinical reflections on the fundamental antinomy of human beings and world. London; New York: Routledge, 1988.
MONDRZAK, Viviane Sprinz. Aproximando Matte-Blanco. Revista de Psicanálise da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre, Porto Alegre, v. 9, n. 1, p. 89-101, abr. 2002.
MONDRZAK, Viviane Sprinz. Processo psicanalítico e pensamento: aproximando Bion e Matte-Blanco. Revista Brasileira de Psicanálise, São Paulo, v. 41, n. 3, p. 118-134, set. 2007.
RACY, Renan. “Ainda que seja loucura, há nela certo método”: o inconsciente segundo Matte-Blanco. 2024. Dissertação — Mestrado em Psicologia Clínica, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2024. Orientador: Renato Mezan.



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