Vício em Pornografia: desejo e repetição
- Rafael Santos
- há 2 dias
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Antes de falar em vício em pornografia, vale combinar o que estamos chamando de vício. Para a psicanálise, essa palavra tem um sentido um pouco diferente daquele que costuma aparecer nos manuais de diagnóstico, nas campanhas de abstinência ou nos vídeos sobre dopamina. Não se trata apenas de medir quantas vezes alguém faz alguma coisa, nem de decidir que determinado objeto é viciante por natureza. O que interessa é a relação que o sujeito estabelece com ele e a função que essa repetição passa a cumprir em sua vida psíquica.
Uma substância, uma pessoa, o trabalho, a comida, o celular ou a pornografia podem tornar-se objetos aditivos quando são convocados repetidamente para produzir uma mudança rápida de estado: interromper uma angústia, anestesiar uma tristeza, preencher um vazio, afastar a solidão ou impedir que algum conflito seja pensado. Por isso, o vício não é visto somente como um hábito ruim que precisa ser eliminado, mas também como uma solução psíquica encontrada para tornar suportável algo que, naquele momento, parecia impossível de elaborar.
É dessa noção específica de vício (menos centrada no objeto em si e mais na função que ele ocupa) que partiremos para pensar a pornografia.
A pornografia pertence à história do erotismo, do indecente, do que deve permanecer escondido e, justamente por isso, desperta a curiosidade do olhar. O sexual humano nunca foi apenas um comportamento corporal. Ele envolve cenas, proibições, palavras, silêncios, roupas, véus, fantasias e maneiras de se deixar ver.
O “pornô” pode, portanto, funcionar como um palco. Mesmo quando tudo parece exposto, há atuação, montagem, enquadramento, exagero, disfarce e ficção. A sexualidade precisa dessas máscaras. Durante a adolescência, inclusive, as imagens pornográficas podem oferecer um repertório provisório para alguém que ainda está tentando compreender o próprio corpo, suas excitações, seus medos e suas fantasias.
O problema começa quando o palco deixa de ser um lugar de experimentação e se transforma na única cena em que o desejo consegue existir. O ponto decisivo não é simplesmente a quantidade de pornografia consumida, mas o que acontece com a capacidade de fantasiar.
A fantasia sexual não é uma fotografia interna perfeitamente definida. Ela é plástica, incompleta e deformável. Alimenta-se de lembranças, encontros, cheiros, palavras, cenas que quase aconteceram, gestos ambíguos, roupas que mostram e escondem, experiências que poderiam ter terminado de outra maneira. A fantasia trabalha justamente com aquilo que não está inteiramente presente.
Quando a pessoa precisa de uma imagem cada vez mais direta, intensa e atualizada para sustentar sua libido, pode estar ocorrendo um empobrecimento desse trabalho imaginativo. Ao invés de procurar dentro de si a trilha das próprias imagens, ela depende de uma imagem pronta.
Mas um ponto fundamental é que não é suficiente explicar a compulsão como uma fraqueza individual. O excesso não ocorre apesar da arquitetura das plataformas. Ele está inscrito nela. A rolagem infinita, a recomendação automática, a segmentação dos gostos e a disponibilidade permanente transformam necessidades humanas legítimas (curiosidade, excitação, reconhecimento, alívio, companhia) em circuitos economicamente exploráveis.
O psicanalista Christopher Bollas ajuda a aprofundar essa questão. Para ele, não procuramos os objetos somente pelo que eles são, mas igualmente também aquilo que eles fazem conosco. Uma música, um livro, um lugar, uma pessoa ou uma imagem pode modificar nossa maneira de sentir e de existir. Bollas chama de objeto transformacional aquele que é buscado por sua capacidade de produzir uma transformação no self.
A primeira experiência transformacional ocorre na relação inicial com quem cuida do bebê. O cuidador nessa fórmula é percebido inicialmente como um conjunto de processos que altera estados corporais.. Mais tarde, continuamos procurando objetos capazes de realizar mudanças semelhantes. Não necessariamente porque nos lembremos conscientemente dessa experiência, mas porque carregamos um saber corporal sobre ela. Bollas chama isso de conhecido não pensado: algo que sabemos pela experiência, embora nunca tenha sido inteiramente formulado em palavras.
A pornografia pode tornar-se um objeto transformacional extremamente eficiente.
Uma pessoa pode recorrer a ela não apenas porque deseja ver sexo, mas porque sabe, mesmo sem pensar, que aquele objeto produzirá uma mudança: o tédio se tornará excitação, a ansiedade difusa ganhará um foco, a solidão será substituída por uma presença visual, a vergonha desaparecerá durante alguns minutos. A sensação de impotência dará lugar ao controle. A tristeza será interrompida por uma descarga corporal. A confusão terminará num orgasmo previsível.
Nesse sentido, a compulsão não se dirige somente ao conteúdo pornográfico. Ela se dirige à transformação psíquica que o conteúdo promete. A pessoa não está apenas procurando um corpo: está procurando uma passagem rápida de um estado interno para outro.
É por isso que o moralismo costuma fracassar. Ele manda eliminar o objeto sem perguntar que trabalho aquele objeto vinha realizando. E, assim, tratar uma compulsão pornográfica não deveria significar declarar guerra à libido. A libido não é o inimigo. O objetivo seria devolver mobilidade ao desejo.
Isso envolve reconstruir uma relação com o próprio corpo que envolva o prazer de fantasiar sem exigir uma imagem pronta. Reaprender a permanecer no intervalo, no tédio e na excitação que ainda não sabe exatamente o que quer. Encontrar objetos culturais que ampliem o idioma do self: literatura, cinema, música, conversas, experiências estéticas, encontros e formas de brincar. Suportar que o desejo possa aparecer numa palavra, numa memória, num cheiro ou numa cena incompleta.
Envolve também perguntar o que acontece nos minutos anteriores ao acesso. Qual estado precisa ser transformado? O que a pessoa não quer sentir? O que espera tornar-se depois? Que forma de vínculo está evitando? O que perderia se aquela cena deixasse de existir? Que parte de sua história sexual só consegue falar por meio dela?
Não é exatamente uma novidade dizer que a pornografia pode se tornar compulsiva. O discurso costuma seguir uma narrativa conhecida: o sujeito era saudável, encontrou a pornografia, teve o cérebro sequestrado pela dopamina e agora precisa voltar ao seu estado natural. Soa convincente. Também soa bastante confortável. Pois transforma uma questão cheia de desejo, vergonha, solidão, história e conflito numa espécie de malware cerebral: basta deletar o arquivo, reiniciar o sistema e pronto: restauração feita com sucesso.
Como vimos, a pessoa talvez não esteja buscando apenas sexo. Está buscando uma mudança de estado. E o objeto entrega. sem atraso, sem conversa e quase sempre sem risco de rejeição. É por isso que a pergunta “como faço para parar?” nem sempre pode ser respondida apenas com bloqueadores de sites e força de vontade.
A pessoa pode até conseguir retirar o objeto, mas continuar presa à necessidade de transformação que a levava até ele. Isso não significa que reduzir ou interromper o consumo seja inútil. Em algumas situações, é fundamental criar barreiras concretas. mas retirar o objeto sem compreender sua função pode deixar um buraco exatamente onde ele atuava.



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