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Resenha psicanalítica de "A Paixão Segundo G.H."

há 11 minutos
7 min de leitura

G.H. é uma mulher, mas seu nome completo nunca aparece. Conhecemos apenas as iniciais G.H. Também há informações de que ela mora sozinha num apartamento de alto padrão, na cobertura de um edifício. É rica ou, minimamente, bem abastada. Faz esculturas e nunca se casou, nem teve filhos, mas já esteve grávida e fez um aborto. Na noite anterior à principal narrativa do livro, esteve numa festa no terraço. Tem uma empregada doméstica que se chama Janair, uma mulher negra. G.H. admite que praticamente não prestava atenção em Janair. No início, sequer consegue recordar seu rosto. Janair dormia no quarto de empregada, no fim da área de serviço, mas também era usado anteriormente como depósito.


Antes de sair, Janair deixou o quarto extremamente limpo, seco e quase vazio, além de um desenho na parede, um desenho a carvão de um homem, uma mulher e um cachorro. É nesse quarto, perto de um guarda-roupas, que G.H. encontra a barata. O livro é fundamentalmente o relato retrospectivo desse encontro com a barata, no dia seguinte, de uma experiência que durou algumas horas.

"Escuta, diante da barata viva, a pior descoberta foi a de que o mundo não é humano, e de que não somos humanos."

Clarice escolhe um animal especialmente inconveniente: a barata. A barata ocupa um lugar curioso em nosso imaginário: costumamos dizer que não há medo dela, mas nojo. O nojo é um sentimento interessante por seu componente de fronteira. Costumamos ter nojo daquilo que não queremos tocar, ingerir, incorporar, reconhecer como próximo de mim.

"Eu estava vendo o que só teria sentido mais tarde - quero dizer, só mais tarde teria uma profunda falta de sentido. Só depois é que eu ia entender: o que parece falta de sentido - é o sentido."

A teoria psicanalítica da abjeção, sobretudo em Julia Kristeva, explorou precisamente essa região em que alguma coisa precisa ser expulsa para que possamos manter a sensação de sermos nós mesmos. O abjeto é aquilo que ameaça uma fronteira. Em "Powers of Horrors", Kristeva diz que o abjeto é aquilo que o sujeito precisa expulsar para conseguir se constituir como sujeito, mas que nunca consegue transformar completamente em um “outro” separado de si. Por isso ele provoca uma mistura muito particular de repulsa, fascínio, medo e atração.


Kristeva insiste que o abjeto não é propriamente um objeto, pois o abjeto ameaça a própria posição a partir da qual eu poderia dizer “eu estou aqui e aquilo está ali”. Se encontro um pedaço de sujeira ou uma mancha sobre o leite e começo a ter ânsia, meu corpo reage antes de qualquer elaboração intelectual. Cuspo, vomito, recuo. Kristeva escreve algo importante sobre isso: ao expulsar aquilo, de certa maneira “eu me expulso”. Porque aquela matéria estava entrando em mim, poderia tornar-se parte de mim.

""Perguntei-me se na verdade Janair teria me odiado - ou se fora eu, que sem sequer a ter olhado, a odiara."

Primeiro, a barata é apenas um inseto repugnante. Depois é um animal. Depois é vida, depois é matéria. Depois começa a parecer estranhamente semelhante à própria G.H. Mas o quarto é tão importante quanto a barata no livro. É curioso e não à toa no livro que uma experiência metafísica tão desmesurada comece com uma questão: entrar no quarto da empregada. O quarto é familiar e estrangeiro ao mesmo tempo. Está dentro e fora. É seu e não é seu.


A ausência de Janair ocupa o quarto de uma maneira quase mais intensa do que sua presença havia ocupado a casa. G.H. não consegue inicialmente lembrar seu rosto. Apenas depois lembra seu nome e também imagina seu ódio. Mas depois G.H. nota que talvez tivesse odiado Janair através de uma forma muito particular de ódio: não vê-la. Há aí no livro um corte social e racial impossível de ignorar.


Janair é uma mulher negra que trabalhava na casa de uma mulher branca e rica e que, retrospectivamente, G.H. percebe ter transformado numa espécie de presença invisível. Ela própria se espanta ao perceber que havia convivido com aquela mulher sem verdadeiramente registrá-la. Janair deixou um desenho na parede, esvaziou o quarto e foi embora.

""A entrada para este quarto só tinha uma passagem, e estreita: pela barata."

O quarto da empregada é tão importante porque ele é simultaneamente um cômodo, um espaço social e uma região psíquica excluída. G.H. domina a casa, mas praticamente não conhece aquele quarto. É a parte de sua própria casa ocupada por alguém que ela própria não viu. Entrar ali é também entrar numa região que sua organização anterior mantinha periférica.


"A Paixão Segundo G.H." é um romance social não no sentido tradicional de romance realista voltado a instituições ou conflitos históricos, mas a estrutura social está entranhada na experiência metafísica. Quando G.H. tenta reconquistar o espaço e devolvê-lo à ordem, encontra aquilo que a ordem não eliminou.


Um livro mais recente, "Escute as feras", da Nastassja Martin, é uma associação interessante que podemos fazer com A Paixão Segundo G.H.. Nos dois casos, o encontro com um animal rompe uma fronteira que parecia estável. "A Metamorfose" de Kafka também é um par mais óbvio, pela figura da barata/inseto e pela desestabilização da diferença humano-animal. Em "Moby Dick", a baleia é outro entre exemplos literários de uma alteridade que o humano não consegue suportar sem transformar em significado: Ahab precisa que Moby Dick signifique alguma coisa.

"Abri a boca espantada: era para pedir um socorro. Por quê? por que não queria eu me tornar imunda quanto a barata? que ideal me prendia ao sentimento de uma idéia? por que não me tornaria eu imunda, exatamente como eu toda me descobria? O que temia eu? ficar imunda de quê?"

Em "A Paixão Segundo G.H.", a personagem vai desmontando aquilo que ela usava para se reconhecer como “eu”. Tudo começa a parecer menos uma essência e mais uma construção que mantém a vida minimamente inteligível. O encontro com a barata leva G.H. a uma região anterior às identidades que usamos para nos distinguir: humano/animal, belo/repulsivo, limpo/sujo, eu/outro.


Ela se aproxima de uma matéria viva quase impessoal. Isso é profundamente perturbador porque ameaça a fantasia de que somos indivíduos muito bem delimitados, o que se aproxima do desafio psicanalítico. A vida inexistente de G.H. não é simplesmente aquilo que ela deixou de fazer, mas também aquilo que sua identidade precisou excluir para poder se tornar G.H. O “não eu” acaba sendo maior do que o eu porque contém possibilidades, desejos, agressividades e formas de existência que a identidade realizada deixou de fora. A imagem mostra G.H. como ausência dentro da própria presença.

"Porque o tédio é de uma felicidade primária demais! E é por isso que me é intolerável o paraíso. E eu não quero o paraíso,tenho saudade do inferno! Não estou à altura de ficar no paraíso porque o paraíso não tem gosto humano!"

G.H. percebe que viveu identificada com uma representação de si: a personalidade como uma forma constituída que simultaneamente nos permite existir e restringe aquilo que podemos vir a ser. O quarto parece morto, seco, esterilizado, mas guarda uma forma de vida extraordinariamente resistente. A barata desmonta a fantasia de que vida é aquilo que é belo, expressivo, humano ou exuberante.

"Agora é o tempo inchado até os limites."

Com a teoria de Christopher Bollas, a barata adquire algo do objeto transformacional, porque o encontro modifica irreversivelmente a organização do self de G.H. Com Bion, aproxima-se de O, uma realidade última que não pode ser conhecida pela representação e diante da qual é preciso tolerar o não saber. O livro é de uma vertigem ontológica.


Clarice desloca o sujeito do centro. O perturbador é que isso produz gozo: matar a barata a aproxima de uma força que ela experimenta como antiga, animal, corporal. O ato externo desencadeia uma investigação sobre a fabricação de si. Antes, ela havia visto o conceito “barata”, não aquela existência, e então nojo e fascínio começam a se misturar. A narrativa se aproxima da associação livre porque as ligações não obedecem inteiramente à causalidade narrativa. A narradora tenta observar simultaneamente aquilo que acontece e as próprias condições pelas quais consegue ou não pensar o que acontece, como uma consciência olhando para os limites da consciência e encontrando algo que não consegue organizar inteiramente.

"A vida pré-humana divina é de uma atualidade que queima. Vou te dizer: é que eu estava com medo de uma certa alegria cega e já feroz que começava a me tomar. E a me perder.""

Mas o que seria o inumano na psicanálise? Qual é nossa “parte barata”? Em Freud, podemos aproximá-lo do pulsional, que não respeita nossa autoimagem civilizada. Em Winnicott, de estados anteriores à integração plena do self. Em em Bion, de experiências emocionais ainda não pensadas. O que perdemos quando nos humanizamos demais? Para Clarice: contato com aquilo que não é “sentimentado” ou narrativamente organizado. Talvez aí haja ecos com Nietzsche, na fidelidade à terra, crítica de além-mundos, corpo, imanência e afirmação trágica da existência.

"Tão mais largo: era medo de minha falta de medo."

Algo genial no livro é que Clarice usa a linguagem para tentar alcançar aquilo que, segundo a própria narradora, existiria antes da linguagem. Clarice procura aquilo que existe antes da palavra, como se a palavra tentasse chegar ao ponto em que palavra nenhuma seria suficiente. Clarice quer apreender o presente antes que seja narrado como passado ou usado como promessa de futuro.


Curiosamente, G.H. parece começar numa experiência que soa transcendental e termina numa espécie de imanência radical. Não sobe para fora do mundo, mas desce para a matéria, corpo, barata e presente. O romance vive desse impasse e é preciso dizer aquilo que, ao ser dito, já deixa de ser exatamente aquilo que foi dito.

"Sabia que teria que comer a massa da barata, mas eu toda comer, e também o meu próprio medo comê-la. Só assim teria o que de repente me pareceu que seria o antipecado: comer a massa da barata é o antipecado, pecado seria a minha pureza fácil."

Com a nossa "pata humana", esmagamos a delicadeza da coisa com excesso de significado. “Humanização” então vira sentimentalização, idealização, beleza obrigatória, explicação, moralização. A provocação no livro é que uma humanidade suficientemente segura não precisaria expulsar o corpo, o feio, o impessoal para continuar sendo humana. Ao comer a barata, ela come também o medo do inumano. O alvo é a ideia de que humano seja "a medida das coisas" e de que a humanidade precise se proteger da continuidade com o resto.


No final do livro, G.H. fala muito sobre o desistir, o que me lembrou o livro "Sobre Desistir" de Adam Phillips. A personagem passou o livro tentando alcançar alguma coisa (verdade, palara, Deus, realidade), até perceber que o movimento de “alcançar” ainda preservava um sujeito heroico que conquistaria o real. Mas “o eu é apenas um espasmo instantâneo do mundo”

 
 
 

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