Estados não-mentais do psiquismo

Mente e psiquismo são a mesma coisa? Esse texto tenta refletir sobre essa questão. Em uso comum, “psiquismo” e “mente” geralmente acabam funcionando quase como sinônimos. Mas, em psicanálise, poderíamos articular uma distinção.
O psiquismo pode ser entendido como o campo mais amplo dos processos psíquicos: afetos, fantasias, desejos, defesas, traços de memória, sensações, modos de ligação, repetições, experiências corporais com valor psíquico e diferentes formas de funcionamento inconsciente. Já a mente poderia ser entendida de maneira mais restrita como uma forma de organização do psiquismo capaz de transformar a experiência, estabelecendo ligações, produzindo representações, simbolizações, sonhos e pensamentos.
Dentro dessa perspectiva, todo funcionamento mental seria psíquico, mas nem tudo aquilo que produz efeitos no psiquismo precisaria estar constituído como experiência mental representável. Psicanalistas como Bion, Winnicott, Roussillon e outros permitem pensar diferentes formas de experiência psiquicamente ativas que ainda não foram suficientemente representadas, simbolizadas ou mentalizadas.
Para Winnicott, por exemplo, a mente não corresponde à totalidade da psique. Ela surge como uma função particular no interior da relação entre psique e soma e, em certas condições, pode inclusive hipertrofiar-se e afastar-se da experiência psicossomática. Em Bion, encontramos outro caminho para essa questão: certas experiências emocionais e sensoriais precisam sofrer transformações antes de poderem ser utilizadas para sonhar e pensar.
Nessa esteira, poderíamos chamar provisoriamente de “não-mente” uma dimensão do psiquismo na qual experiências e efeitos psíquicos ainda não adquiriram uma organização suficientemente representacional. Aqui então estamos falando de experiências marcadas pelo predomínio de excitações, sensações, tensões, gestos, afetos, ritmos e estados corporais que ainda não encontraram uma forma psíquica capaz de representá-los e ligá-los.
“Não-mente”, portanto, não significaria ausência de psiquismo, mas uma modalidade de experiência anterior ou exterior, em determinado momento, à sua transformação em representação e pensamento.
Essa hipótese exige distinguir o não-representado daquilo que já possui representação, mesmo que permaneça inconsciente. No texto “O inconsciente” (1915), Freud formula a distinção entre representação-coisa e representação-palavra. A representação consciente compreende a representação-coisa ligada à representação-palavra correspondente, enquanto a representação inconsciente permanece constituída pela representação-coisa. A ligação às palavras permite, para Freud, uma organização psíquica mais elevada e participa da passagem do processo primário para formas próprias do processo secundário.
A representação-coisa, portanto, já não pertence propriamente ao campo que estamos chamando aqui de “não-mente”: ela já constitui uma forma de representação. Isso permitiria distinguir pelo menos três registros:
1. Não-representado ou proto-mental: excitação, sensação, tensão, ritmo, descarga ou experiência corporal e emocional que ainda não adquiriu uma forma representacional.
2. Representação-coisa: imagens, cenas, traços mnêmicos e configurações sensoriais que podem existir e operar inconscientemente sem estarem ligadas a palavras.
3. Representação-palavra: a experiência representada pode ser ligada à linguagem, entrando em associações, narrativas, diferenciações conceituais e formas discursivas de pensamento.
É sobretudo o primeiro desses registros que ganha maior elaboração em autores posteriores. Em Bion, por exemplo, o elemento beta não pode ser simplesmente equiparado à representação-coisa freudiana. Se já fosse representação no sentido pleno, teria ocorrido uma transformação que Bion atribui à função alfa. Os elementos beta correspondem a impressões sensoriais e experiências emocionais que ainda não puderam ser transformadas em elementos disponíveis para sonhar, recordar e pensar.
Freud possui conceitos para pensar aquilo que pressiona o aparelho psíquico antes ou nos limites da representação, sobretudo por meio do conceito de pulsão, situado na fronteira entre o somático e o psíquico. Mas não desenvolve tão extensamente quanto autores posteriores uma teoria clínica das experiências que deixam marcas e produzem efeitos sem terem chegado a constituir-se plenamente como representações. É nesse território que a hipótese de uma “não-mente” pode começar a ganhar consistência.
No livro "Elements of Psycho-Analysis", de Bion, no capítulo VI, ele fala dos elementos beta como a matriz mais primitiva da qual os pensamentos podem surgir. Nesse nível, ainda não existe uma distinção clara entre objeto psíquico e objeto inanimado: Bion chega a dizer que “pensamentos são coisas, coisas são pensamentos”. Em contraste, os elementos alfa já resultam de uma transformação das impressões sensoriais e tornam possível sonhar e pensar.
Ainda na mesma referência, Bion fala de como os elementos beta podem começar a adquirir significado e compara isso a rabiscar ou escrever: algo é exteriorizado, pode ser examinado e, assim, começa a “render” um significado.
Nesse campo de investigações em aberto, o proto-mental é entendido como uma matriz em que somático e psíquico ainda são indiferenciados, constituída por zonas psíquicas não verbais e não representacionais. Ou seja, existe vida psíquica antes da mente representacional plenamente constituída.
No livro "Os sujeitos da psicanálise", de Thomas Ogden, no capítulo III, ele apresenta a posição autista-contígua como uma organização psicológica ainda mais primitiva que as posições kleinianas. Nela, a experiência é dominada por sensações e por “impressões proto-simbólicas” da experiência sensorial. Aqui Ogden chega muito perto de uma formulação explícita de um psiquismo sensorial anterior ao sujeito representacional.
Isso implica ainda na ideia de que certos setores da vida psíquica não podem ser recalcados porque ainda não estão representados. O psicanalista René Roussillon, por exemplo, descreve experiências de tensão e desprazer “sem representação”, embora isso não signifique ausência de percepção ou sensação. Em "Primitive Agony and Simbolization", ele usa expressões como “nebulous subjectivity”” e “emerging ego-subject”. Mais adiante, fala de experiências que não constituem necessariamente lembranças declarativas e que podem sobreviver em formas procedurais de memória e, quando retornam, não retornam propriamente como uma re-presentação do passado, mas como uma apresentação atual: são vividas como se estivessem acontecendo agora.
Dependendo da resposta do objeto, elas podem adquirir um “potencial proto-simbólico” e “proto-narrativo”; se isso falha, permanecem como formas não significadas.
“Some aspects of mental life cannot be repressed because they are not represented" (René Roussillon)
Em Roussillon, há pelo menos um grupo de experiências que faz sentido pensar como nunca tendo alcançado representação suficiente. Ele descreve estados precoces nos quais a subjetividade ainda não está integrada e experiências muito ligadas ao corpo, às sensações e aos processos sensório-motores. Exemplos humanos típicos seriam estados precoces de fome, desconforto, terror, excitação, aconchego ou abandono, anteriores à linguagem e a uma organização estável do self. Também poderíamos incluir certas expectativas relacionais muito primitivas que aparecem mais como modo de estar com o outro do que como pensamento, assim como experiências traumáticas que excederam a capacidade de ligação naquele momento.
Na clínica, isso muda o que os analistas podem entender o que está acontecendo quando o paciente “não consegue falar” de certas coisas. Num modelo mais clássico, você parte da ideia de que há algo representado e reprimido: o paciente sabe sem saber que sabe, e a análise tenta recuperar esse conteúdo por meio da associação. Roussillon está dizendo que, em alguns pacientes, parte importante do sofrimento não está nesse registro. Há experiências que “não podem ser reprimidas porque não são representadas” e que permanecem fora da integração subjetiva. Nessas situações, o trabalho analítico participa da própria construção dessa representação.



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