15 Músicas sobre Luto
Falar de luto através da música é perceber que a morte pode aparecer como uma cadeira vazia, um quarto ainda habitado por cheiros, uma máquina respirando ao lado de um leito, um espelho que quebra, um céu que se racha, uma culpa que retorna ou até como a imaginação de um mundo no qual não estamo.
As quinze músicas reunidas aqui mostram que o luto não é um sentimento único nem uma experiência exclusivamente silenciosa. Pode ser ternura, raiva, culpa, resistência, fantasia, memória, ancestralidade, transformação e até a renovação de uma urgência de viver. Falar de lut é falar não apenas de quem morreu, mas o que desaparece de nós com essa pessoa, o que permanece dela em nós e o que fazemos com esse vazio.
SURFJAN STEVENS - FOURTH OF JULY
“Fourth of July”, de Surfjan Stevens no disco Carrie & Lowell (2015), nasce do luto de Sufjan Stevens por sua mãe. Stevens teria contado posteriormente que a conversa com a mãe é imaginada (inclusive os apelidos “my firefly”, “my little dove”, “my little Versailles”, “my dragonfly”). A música fabrica, depois da morte, uma conversa afetuosa que não pôde existir daquela maneira em vida. O luto também como uma investigação retrospectiva do vínculo.
Freud inclui justamente entre os movimentos do luto a rememoração do morto e a pergunta pelo que, afinal, foi perdido junto com ele. Na psicanálise, a morte nos confronta com a perda do outro e também com a transformação do próprio Eu.
Na música, o “We’re all gonna die”repetido parece bem mais que pessimismo: é uma verdade que precisamos aceitar. Saber que vamos morrer devolve valor ao tempo ainda disponível. A referência na música ao incêndio de Tillamook, em Oregon, reforça essa constelação de fogo, destruição e transitoriedade. Da mesma forma, a referência ao “Fourth of July” parece funcionar como uma imagem de luz intensa e passageira. A vida aparece como alguma coisa brilhante e passageira. A música também é sobre a mortalidade de todos nós.
SÉRGIO BITTENCOURT - NAQUELA MESA
“Naquela Mesa”, composta por Sérgio Bittencourt depois da morte de seu pai, em 1969, talvez seja uma das canções brasileiras que melhor mostram como o luto muda os objetos. Não há nada de grandiosamente extraordinário na cena: uma mesa, uma cadeira, uma casa, um jardim. Antes, porém, aquela mesa era o lugar em que o pai “contava histórias”, fazia planos e reunia pessoas. Depois da morte, o móvel permanece exatamente onde estava, mas sua significação muda completamente.
É por isso que “Eu não sabia que doía tanto / uma mesa num canto” é tão genial para falar sobre luto. A realidade material insiste e testemunha que alguém não está mais. Memória e traços no luto sobrevivem à perda real, prolongando sua presença psíquica. Em “Naquela Mesa”, esses traços parecem ter aderido ao espaço doméstico, com a mesa tornando-se um arquivo involuntário do pai.
“Que mais que seu filho, eu fiquei seu fã” introduz admiração e identificação: Sérgio perdeu ao mesmo tempo o pai e alguém que ocupava para ele o lugar de referência e ideal. O luto transforma também o próprio eu.
A ampliação instrumental/orquestral que aparece em algumas gravações produz um efeito importante: uma lembrança inicialmente íntima ganha volume, quase como se a pequena cena doméstica se expandisse emocionalmente. O samba encontra o luto no cotidiano: depois que alguém morre, às vezes é uma cadeira vazia, um jardim ou uma mesa no canto que tornam sua ausência novamente presente.
DEATH CAB FOR CUTIE - WHAT SARAH SAID
“What Sarah Said”, da banda Death Cab For Cutie, é uma canção sobre o luto antes da morte. Não estamos diante de alguém recordando quem morreu, mas de alguém dentro do hospital acompanhando uma pessoa. O trecho “And it came to me then that every plan / Is a tiny prayer to Father Time” desmonta a própria ideia de plano: planejar é agir como se tivéssemos direito ao futuro. Mas nenhum plano garante que estaremos vivos quando ele chegar. “Father Time” é essa personificação ocidental do Tempo como uma figura masculina e ancestral, o Pai Tempo.
A música fala de um tipo muito particular de luto, mas muito frequente. Ainda há um corpo ali, mas alguma coisa da relação já começa a ser perdida. O mundo hospitalar é obscenamente banal enquanto para alguém o mundo inteiro está acabando: máquinas de refrigerante, revistas velhas, televisão, produtos de limpeza. Nada corresponde à magnitude psíquica do acontecimento. E a sala de espera é exatamente isso, uma espera. Não se pode agir, não se pode acelerar: “There’s no comfort in the waiting room / Just nervous pacers bracing for bad news".
Uma das formas do amor é permanecer quando já não há mais nada a fazer.
DAVID BOWIE - LAZARUS
David Bowie já tinha câncer durante as gravações desse disco. Ele só recebeu a notícia de que a doença era terminal por volta de novembro de 2015, durante o período em que o vídeo de “Lazarus” estava sendo realizado. Bowie então fez Blackstar sabendo que estava seriamente doente e confrontado com sua mortalidade, mas não necessariamente sabendo, durante toda a criação, que aquele seria seu último álbum.
A música também pertence ao musical Lazarus, construído por Bowie e Enda Walsh em torno do alienígena de The Man Who Fell to Earth. Mas depois de sua morte tornou-se impossível não ouvir trechos como “Look up here, I’m in heaven” autobiograficamente. “I’ve got scars that can’t be seen” pode designar doença, sofrimento invisível, marcas psíquicas, uma vida que o público não consegue enxergar por completo.
E o final, com “I’ll be free / Just like that bluebird”, pode ser ouvido como morte enquanto libertação (do corpo, da doença, talvez até da persona Bowie). Às vezes uma canção aparentemente sobre liberdade está falando da morte. Às vezes uma canção explicitamente sobre a morte está falando também de identidade, fama ou transformação. E talvez realmente falemos da morte muito mais do que percebemos.
A relação simbólica entre vida e morte não aparece apenas quando alguém efetivamente morre.
JOÃO NOGUEIRA - ESPELHO
O pai de João Nogueira era violonista profissional, ensinou o filho a tocar e morreu quando João tinha apenas dez anos. Isso torna “E que vontade de tocar viola de verdade / e de fazer canções como as que fez meu pai” muito maior do que uma homenagem profissional.
Quando alguém muito importante morre, podemos dizer que perdemos um espelho, não no sentido de que toda pessoa amada seja apenas uma superfície narcísica, mas porque parte daquilo que sabemos sobre nós vinha do olhar daquela pessoa. Quando esse outro morre, desaparece também uma maneira específica de sermos vistos. Em “Espelho” ocorre ainda uma outra coisa: perde-se o espelho externo e, aos poucos, carrega o espelho para dentro.
Anos depois, em “Além do Espelho”, ele retorna explicitamente à metáfora e escreve sobre olhar os próprios olhos e encontrar neles o olhar do pai morto. Depois olha para os filhos e percebe a mesma transmissão. A canção chega à formulação de que ele é o “espelho do espelho” e de que, quando o espelho é bom, de algum modo ninguém desaparece inteiramente.
Como aparece em outras músicas aqui listadas, o luto reaparece através de acontecimentos banais. Se o “espelho” é a continuidade entre pai e filho, quebrá-lo seria perder essa ligação, deixar de reconhecer o pai em si, deixar de transmitir aquilo que recebeu, talvez até perder a própria capacidade de transformar a experiência em samba.
Musicalmente, há algo doméstico, ensolarado e melancólico nesse samba. Uma sensação de lembrar da infância numa tarde em que já passou muito tempo.
Em grande parte, o trabalho de luto é descobrir de que maneiras aquele olhar passou a existir dentro de nós.
FIDDLEHEAD - GRIEF MOTIF E THE YEARS
“Grief Motif” e “The Years” são as duas faixas que abrem Between the Richness (2021) da banda Fiddlehead. Apesar de duas músicas, foram concebidas para funcionar como uma única. “Grief Motif” começa com a voz do próprio poeta E. E. Cummings recitando versos de i carry your heart with me: “I carry your heart with me / I carry it in my heart”. A delicadeza inicial da música inicial do disco vai sendo engolida aos poucos por guitarras mais tensas e pela repetição de “fall apart”, até desembocar diretamente na explosão de “The Years”.
O poema de abertura de Cummings fala sobre uma ligação tão profunda que a pessoa amada passa a existir dentro do próprio eu. Mesmo quando os dois estão separados fisicamente, o outro continua presente na maneira como o eu sente, age e percebe o mundo. O limite que distingue “eu” e “você” é borrado. Há alguma coisa no vínculo que também está no fundamento da própria vida.
No contexto do luto, é comum ouvir essa experiência: alguém desapareceu do mundo, mas continua sendo carregado por quem ficou. Ambas as músicas do Fiddlehead abordam diretamente o luto, mais especificamente sobre o que aconteceu com o vocalista anos depois da morte de seu pai, num momento em que ele próprio havia acabado de se tornar pai. O verso “Nothing can change the pain and I don’t want it to” é marcante. Recusa uma ideia de elaboração como apagamento ou eliminação. A dor também preserva uma ligação. Algo da perda permanece. Trechcosd de “The Years" (“get up”, “get out”, “go on”) empurram a música para a vida que precisa continuar.
A pergunta repetida na letra “Oh, what would you think of me?” torna o luto uma espécie de interlocutor interno diante da vida.
MOUNT EERIE - REAL DEATH
“Real Death”, faixa de abertura do Mount Eerie no álbum A Crow Looked at Me (2017), é uma das gravações mais brutais sobre luto. O disco foi escrito depois da morte de sua esposa, Geneviève Castrée, artista e musicista que colaborava de perto com ele, vítima de câncer pancreático em 2016. O compositor retira da morte qualquer proteção. A sonoridade acompanha essa recusa de ornamentação. Violão, poucos elementos, voz baixa e quase conversada. Como se estivéssemos ouvindo alguém registrar acontecimentos. A sequência da letra “my knees fail / my brain fails / words fail” pode ser escutada psicanaliticamente como três níveis de colapso diante da morte: o corpo não sustenta, o pensamento não organiza e, finalmente, a linguagem não dá conta.
Na psicanálise, o luto abre um buraco que exige trabalho de simbolização. Em “Real Death”, estamos quase no instante anterior a essa operação. A morte acabou de acontecer e as palavras ainda “falham”, embora o paradoxo seja que ele esteja dizendo isso dentro de uma canção.
Na letra, as correspondências continuam chegando. Um objeto banal que carrega dois tempos incompatíveis: o futuro que a mãe imaginou para a filha e o futuro em que ela própria já não estará. A música parece resistir a encontrar um significado maior na morte, permanecendo nas nuances. No trabalho do luto, algo desaparece, algo se transforma, algo permanece.
Como o próprio nome sugere, "Real Death" entra em um momento em que a perda ainda não virou saudade, nem aprendizado nem memória pacificada.
NICK CAVE AND THE BAD SEEDS - GHOSTEEN
“Ghosteen”, faixa-título do álbum do Nick Cave and The Bad Seeds, é uma música de luto, embora Nick Cave tenha dito que não começou a escrever o disco deliberadamente sobre a morte do filho, que faleceu aos 15 anos em 2015. Segundo Nick Cave em entrevistas, o filho foi entrando nas canções até se tornar uma espécie de presença que comandava o processo de escrita. Isso ajuda a entender por que a música parece tão fantasmática e metafísica. Cave definiu “Ghosteen” como “a migrating spirit”, um espírito migrante, e descreveu o disco como se suas canções flutuassem para além do mundo material. Ele disse que a percussão prendia as músicas ao chão, quando eles queriam que elas “flutuassem”.
É interessante aproximar isso pelo caráter estético do luto: a escrita e a produção de imagens dão forma à perda, criando maneiras de manter uma relação com aquilo que já não está presente corporalmente. Na música, o luto não cancela a beleza. A música chega ao seu ponto mais claro quando Nick Cave canta “Love's like that, you know” e descreve o passado como uma correnteza que não solta. E então vem talvez o verso decisivo: “There's nothing wrong with loving something / You can't hold in your hand”. O corpo não está mais disponível, mas o amor não depende da possibilidade de segurá-lo.
Nick Cave posteriormente disse que, por meio da música, tentou criar “um lugar para Arthur estar”, real ou imaginário. A longa orquestração celestial de “Ghosteen” parece construir musicalmente esse lugar, enquanto espaço entre memória, imaginação, amor e presença.
MILTON NASCIMENTO - MENINO
“Menino”, de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, transforma o luto em ato político. A canção foi composta em reação ao assassinato do estudante Edson Luís pela polícia, em 1968. O verso “Quem cala sobre teu corpo / consente na tua morte” desloca o problema, pois há uma primeira morte, provocada pela bala, e uma espécie de segunda morte possível, produzida pelo silêncio e pela aceitação pública da violência. O luto também enquanto uma demanda de reconhecimento e justiça.
A música retira o luto do espaço privado e o coloca no espaço público. A música tem um arranjo incômodo e tensionado. Os efeitos de guitarra produzem algo semelhante a um alarme de incêndio. A música vai se adensando e a voz de Milton abandona progressivamente qualquer contenção. Gritar é uma maneira de continuar vivendo.
O silêncio não mata de novo literalmente, mas ajuda a produzir uma segunda morte simbólica. Afinal, um luto depende também de condições sociais para que aquela vida possa ser lembrada e reconhecida.
JAPANESE BREAKFAST- IN HEAVEN
“In Heaven”, do disco Psychopomp (2016) da banda Japanese Breakfast, nasce diretamente do luto da vocalista pela morte da mãe. Ela chama esse período de seu “mourning record”, e “In Heaven” é uma das músicas em que isso aparece de forma mais explícita. O começo é especialmente forte porque desloca a percepção da morte para o cachorro: “The dog’s confused / She just paces around all day / She’s sniffing at your empty room”. O animal não tem a narrativa que os humanos constroem, mas percebe que alguém que fazia parte daquele ambiente desapareceu. É algo próximo de “Naquela Mesa”: a ausência não está no nada; ela aparece através das coisas que permaneceram.
E aí chega “I came here for the long haul / Now I leave here an empty fucking hole”. “Buraco” é uma imagem muito comum ao luto porque um buraco é uma ausência que ganhou forma. Não é simplesmente “não haver nada”, alguma coisa falta justamente ali. A perda abre algo que demanda trabalho de simbolização, sem que isso signifique conseguir preencher completamente aquilo que se perdeu.
É comum que a morte deixe um butaco no mundo dos vivos, mas também as pessoas que vivem sejam transformadas em buracos. Na imagem do buraco, a perda parece ter atingido a própria arquitetura do sujeito. Por isso um trabalho sobre oo luto é também uma investigação sobre o que estava ligado à pessoa perdida. A morte de alguém íntimo deixa uma falta porque aquela pessoa sustentava posições que não existem mais.
THE MARS VOLTA - TELEVATORS
O álbum ficcionaliza a história de um amigo dos integrantes da banda, artista de El Paso que morreu em 1996. No universo do disco, ele reaparece transformado em Cerpin Taxt: entra em coma após uma tentativa de suicídio, atravessa um mundo mental fantástico, desperta e acaba escolhendo a morte. É como se a morte real tivesse sido passada por um sonho antes de conseguir voltar à linguagem.
O disco trabalha com uma colagem verbal deliberadamente obscura. Esse artifício surrealista é interessante para falar da morte. Não recebemos uma fotografia organizada do acontecimento, mas restos. Depois de uma morte violenta, a lembrança pode aparecer menos como narrativa contínua e mais como cenas, partes corporais, imagens e frases que retornam. E a produção artística é uma das formas de transformar a perda em artefato de memória.
A música do The Mars Volta tem um clima meio faroeste, com paisagens sonoras estranhas, o que produz uma sensação de deserto e deslocamento. "Televators” começa com uma longa montagem de sons ambientais antes de o violão aparecer. Entramos numa espécie de mata noturna artificial, uma natureza que parece simultaneamente viva e ameaçadora. A morte é transformada em uma espécie de viagem ou fábula.
BJORK - ANCESTRESS
Björk escreveu “Ancestress” de Fossora (2022) depois da morte de sua mãe, em 2018. Björk, que era filha, percebe que agora ocupa uma posição mais adiante nessa corrente genealógica, algo reforçado pelo fato de seu próprio filho cantar na faixa. Três gerações estão implicitamente presentes.
A música parece uma espécie de cantiga de ninar, mas em uma estrutura ritualística, que a faz parecer uma procissão ou cerimônia. Em entrevistas, Björk disse que queria inventar seu próprio ritual, porque sentiu que algo faltara no funeral convencional de sua mãe. Como se a música oferecesse à mãe um segundo funeral, agora feito na linguagem da filha.
O trecho “The machine of her breathed all night / while she rested” é bastante significativo. Uma função que pertencia ao corpo passa parcialmente para uma máquina. A fronteira entre pessoa e tecnologia fica estranha. E então vem a quebra seca: “Revealed her resilience / And then it didn’t”.
“You see with your own eyes / But hear with your mother’s / There’s fear of being absorbed / By the other” é outro trecho forte na música. Crescer exige diferenciar-se: meus olhos são meus, meu desejo é meu, minha vida não é a dela. Mas nunca conseguimos separar completamente aquilo que é “meu” daquilo que aprendemos a perceber através dos outros primordiais. A psicanálise pensa o luto justamente como uma transformação do Eu ligada à identificação: diante da morte, não investigamos apenas quem perdemos, mas o que daquela pessoa já fazia parte de nós.
Existe carne compartilhada literalmente, mas também há linguagem, ritmo, gestos, valores e conflitos. A alegoria do perfume no final da música é perfeita porque um perfume é uma presença que permanece depois que o corpo que o produziu saiu do lugar. Você não segura a pessoa, mas alguma coisa dela ainda está no ar.
A morte transforma uma relação horizontal (eu e minha mãe, duas pessoas vivas que brigam, se afastam, se parecem e tentam não se parecer) numa relação vertical, de ancestralidade.
NELSON CAVAQUINHO - QUANDO EU ME CHAMAR SAUDADE
“Quando Eu Me Chamar Saudade”, de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, faz uma operação diferente de quase todas as músicas que vimos até aqui. Ele se coloca antecipadamente no lugar do morto e olha para os vivos que ficarão.
“Sei que amanhã, quando eu morrer / os meus amigos vão dizer / que eu tinha um bom coração.” Ele imagina os comentários, o choro, as homenagens. É quase como se pudesse assistir ao próprio velório. O sujeito transformando imaginariamente a si próprio em objeto da memória, do discurso e do luto dos outros.
A música é uma maneira de formular aquilo que acontece socialmente com os mortos: eles deixam de ocupar fisicamente o mundo e passam a ocupar lugares na memória dos vivos. E isso permite falar em uma espécie de luto de si mesmo, enquanto ensaio imaginário. É precisamente porque haverá um momento em que não poderemos mais fazer certas coisas que elas importam agora.
Freud já amplia o luto para perdas que não envolvem morte. Um amor, um ideal, uma pátria, uma posição etc. Quando consigo imaginar um mundo em que já não estou, percebo melhor o que ainda quero receber e oferecer enquanto estou aqui, parece falar "Quando Eu Me Chamar Saudade".
CONVERGE - ALL WE LOVE WE LEAVE BEHIND
O vocalista da banda Converge contou que escreveu a faixa poucos dias depois da morte de sua cadela, sua companheira por muitos anos. Disse que havia perdido grande parte da vida dela porque estava viajando em turnê. De certa maneira, a música parece falar desse conflito maior entre vocação e presença, estrada e casa, o que escolhemos viver e o que sacrificamos ao escolher.
Amar alguma coisa não garante que estaremos presentes para ela durante todo o tempo que gostaríamos. A rememoração da relação, a investigação do que foi perdido e sentimentos ambivalentes de culpa e vergonha estão entre os movimentos próprios do luto. A culpa pode ser uma tentativa dolorosa de continuar agindo sobre um acontecimento sobre o qual já não se pode agir.
A sonoridade da música parece destacar o sentimento de ameaça através da bateria que soa como tambores e do riff de guitarra. O luto acumula, uma lembrança puxa a outra, a gratidão puxa a culpa, a culpa puxa novamente o amor. Culpa, vergonha, choro, alívio, descrença e outros afetos se misturam em temporalidades não lineares.
Os gritos dão à culpa um componente físico. Há ainda uma oposição linda na letra entre “hole in my heart” e “weight in the air”: a perda é simultaneamente buraco e peso.
MASTODON - CRACK THE SKYE
A faixa é ligada diretamente a Skye Dailor, irmã do baterista Brann Dailor. O próprio Brann disse que carregava essa morte havia cerca de vinte anos e que queria “erguê-la” artisticamente, colocar o nome dela no mundo. O título traz essa ideia de rachar o céu. Por isso o “Skye” do título tem o “e” do nome dela.
Por trás do imaginário típico da banda, ou seja, projeções astrais, espíritos, buracos de minhoca, cultos e viagens entre mundos, há uma história de luto. Algumas obras falam além do sofrimento apenas em linguagem psicológica. Transformam estados internos em cosmologias. São mitos, figuras esotéricas, monstros e paisagens usadas para dar corpo a experiências que seriam pequenas demais se fossem ditas apenas como “eu sofri”. Uma perda familiar vira uma rachadura cósmica.
Lida a partir de Skye, a imagem parece muito próxima da experiência de quem fica depois de uma morte: um vazio e uma procura por algum sinal daquele que desapareceu. Diante de uma morte, existe uma realidade irredutível: a pessoa não volta. Mas a imaginação pode servir para criar uma forma na qual a relação com o morto continue existindo.
Para conseguir falar de uma adolescente que morreu, Brann não escreve uma elegia realista, mas precisa falar em termos de vazios, almas, estrelas e um céu que literalmente se parte. O mito deixa de esconder o luto e passa a carregá-lo.



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