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Crises de pânico: algumas reflexões psicanalíticas

há 14 minutos
5 min de leitura

"Figure" de Francis Bacon (1951)
"Figure" de Francis Bacon (1951)

A crise de pânico pode ser entendida como um estado em que uma alteração corporal e afetiva adquire rapidamente qualidade de catástrofe, ultrapassa temporariamente a capacidade de simbolização e ameaça a continuidade do sentido de si. Não existe uma teoria única específica do “transtorno do pânico” na psicanálise. O que se tenta obter com esse texto é extrair alguns conceitos e reflexões que ajudam a pensar a experiência da crise.


Pan, deus grego associado aos campos, bosques e pastores, era relacionado à irrupção de um terror súbito e aparentemente sem causa, capaz inclusive de provocar fuga coletiva. A imagem é curiosamente próxima da fenomenologia atual: algo irrompe, desorganiza o pensamento e põe o organismo em fuga antes que exista uma explicação clara.


Melanie Klein aponta em seus escritos sobre essa ansiedade primal de medo de aniquilação e a oscilação entre integração e desintegração do ego. Esse medo da aniquilação pode assumir uma forma persecutória, como se algo incontrolável e esmagador estivesse prestes a atacar o sujeito. Isso pode ajuda a entender fenomenologicamente por que, numa crise, “vou morrer”, “vou perder o controle”, “vou desaparecer”, “algo terrível vai acontecer” podem ser vividos com uma certeza muito maior do que uma preocupação de rotina. É um episódio psicofisiológico com manifestação corporal intensa.


Para Klein, a capacidade de suportar essa ansiedade aumenta com confiança no objeto bom e respectiva integração do ego, em que estados inicialmente de enorme aflição vão podendo ser reunidos numa experiência psíquica menos fragmentada.


No geral, a psicanálise desconfia dessa separação entre "perigos de fora" e "perigos de dentro". Situações externas despertam configurações internas antigas, e essa interação continua, em algum grau, ao longo da vida adulta.


Em certo sentido, uma crise de pânico poderia ser pensada como um momento em que a ansiedade deixa temporariamente de ser suficientemente localizada e integrada e adquire uma qualidade de ameaça total.


Curto-circuito


André Green descreve situações em que o “trabalho do negativo” pode interromper ou curto-circuitar a representação, deixando movimentos psíquicos que não chegam a adquirir forma representável. Sua teoria estrutural diferencia ansiedades “vermelha”, “negra” e “branca”.


  • Angústia vermelha: ligada ao corpo libidinal e à ameaça imaginária de uma ferida que sangra. O vermelho remete ao sangue, à ferida, ao corpo sexual e libidinal ameaçado. Alguma coisa está intensamente investida e ameaça.

  • Angústia negra: pertence ao registro do ódio. O objeto não desapareceu psiquicamente, ele pode estar muito presente, só que como objeto odiado, persecutório. No ódio ainda existe vínculo, continua dando notícias uma relação intensa com o objeto.

  • Angústia branca: como página em branco, apagamento e vazio. Dá notícias de um desinvestimento que não é só uma ausência, mas uma perda experimentada em nível narcísico. Na ansiedade branca, a experiência é de não conseguir sequer encontrar psiquicamente o que falta. O próprio suporte representacional sofre uma espécie de apagamento.


Trazendo essa leitura de Green para a reflexão sobre as crises de pânico, em certos pacientes, a experiência pode ter uma dimensão “vermelha”, de corpo hiperpresente, coração, respiração, tontura, sensação de morte. Para outras pessoas ou em outros momentos, pode aparecer algo muito mais próximo do “branco”, enquanto desrealização, perda de sentido, sensação de desaparecer. Já uma dimensão “negra” apareceria quando o terror vem impregnado de ódio, raiva, hostilidade. E numa mesma crise as três podem se misturar e transitar.


Aplicando as reflexões de Green à discussão sobre as crises de pânico, surge uma hipótese clínica: às vezes há afeto demais e representação de menos. Ou seja, a pessoa não está simplesmente “pensando algo assustador”, mas o corpo e a sensação de catástrofe ocupam o espaço onde deveria existir uma cadeia mais complexa de imagens e pensamentos. E então "algo está acontecendo comigo" antes de um "o que" suficientemente representável.


Corpo do transbordamento


O trabalho sobre o corpo na psicanálise de Maria Helena Fernandes é especialmente útil. Ela distingue, em sua leitura metapsicológica, um “corpo da representação” de um “corpo do transbordamento”. O último aparece quando há um excesso que se situa aquém da simbolização, algo que não encontra representação psíquica suficiente e passa a adquirir eficácia diretamente corporal.


O pânico na psicanálise é comumente associado ao colapso da função simbólica. No contexto clínico, isso direciona para o manejo, no sentido de que perguntar imediatamente “o que isso significa para você?” pode ser prematuro. Primeiro pode ser necessário recuperar a possibilidade de pensar.


Alguns autores também trabalham com a ideia de falha da angústia-sinal: a angústia deixa de funcionar como advertência e invade o sujeito como uma onda. No lugar do “há alguma coisa me ameaçando" da angústia-sinal, a angústia-pânico diz “já estou dentro da catástrofe”.


Em uma crise de pânico clássica,  há ativação intensa de sistemas de defesa: aceleração cardíaca, mudanças respiratórias, suor, tremores, alterações gastrointestinais, vasomotoras e musculares, aumento da vigilância etc. Se a pessoa hiperventila, a queda de CO₂ pode contribuir para tontura, formigamento, sensação de cabeça leve e estranheza. Os sinais internos passam a ser tratados como altamente relevantes para sobrevivência. O coração deixa de ser um ruído de fundo e vira “o coração”.


Em alguns ataques, uma modificação corporal muito discreta parece preceder o medo consciente. Em outros, uma percepção, fantasia, memória, situação relacional ou avaliação de ameaça precipita a alteração corporal. Há uma terceira possibilidade conceitual interessante: antes de “mente” e “corpo” se separarem claramente na experiência, existe uma excitação afetivo-somática procurando destino psíquico.


Masa psicanálise, o caráter inesperado de uma crise de pânico é realmente inesperado ou apenas obscuro?  Fenomenologicamente, ele pode ser realmente inesperado: a consciência não percebeu ameaça alguma. Mas isso não significa necessariamente ausência de determinantes. Pode haver associações inconscientes, separações, experiências corporais, situações relacionais, conflitos ou perdas que não chegaram a ser reconhecidos. Não à toa, o pânico pode aparecer em conflitos de autonomia, sexualidade, separação, dependência, agressividade, escolhas e mudanças de vida.


No nível imediato, há medo da morte, colapso, loucura, perda de controle, sufocamento, desmaio ou ausência de socorro. Num nível psicodinâmico, não existe um "medo universal" escondido atrás de todos os ataques, mas os autores que estamos trabalhando repetem alguns eixos: desamparo, aniquilação, separação, perda do objeto, intrusão, perda da própria continuidade e finitude. O pânico pode ser justamente aquilo que acontece quando o medo ainda não conseguiu virar um medo suficientemente delimitado e representável.


Há ainda uma importante diferenciação clínica entre fobia e pânico. Na fobia, algo consegue localizar a angústia: cachorro, avião, metrô, multidão, elevador, rua, espaço aberto etc. No pânico puro, muitas vezes o objeto falta ou chega apenas depois / a posteriori.


Na crise de pânico, portanto, o sujeito não experimenta simplesmente um medo muito intenso. Ele perde, por alguns instantes, mediações que normalmente transformariam excitação em experiência psíquica pensável.

 
 
 

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