Resenha psicanalítica de "A Morte de Ivan Ilitch"
- Rafael Santos
- há 3 horas
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Em A Morte de Ivan Ilitch, Tolstói acompanha um juiz bem-sucedido que construiu a vida segundo as suas principais convenções de sua classe: carreira, prestígio, casamento. Quando uma doença o aproxima da morte, Ivan percebe que tudo aquilo que parecia correto talvez tenha sido uma forma de se afastar da radicalidade e singularidade da própria existência. Diante do adoecimento, ele encara a pergunta devastadora sobre se a vida que viveu foi errada. A proximidade da morte transforma-se numa investigação sobre autenticidade, solidão e sentido.
Pelo título e logo no início do livro, Tolstói já informa explicitamente que Ivan Ilitch morreu. Os colegas estão no tribunal quando recebem a notícia de sua morte e imediatamente começam a pensar nas consequências profissionais disso. Portanto, você já sabe o desfecho e passa a acompanhar como aquele homem chegou até ali.
Alguns anos antes de A Morte de Ivan Ilitch, Machado de Assis fez um jogo parecido em Memórias Póstumas de Brás Cubas, talvez de forma ainda mais radical. O primeiro capítulo chama-se “Óbito do autor”, e Brás Cubas explica que prefere começar pela própria morte ao invés do nascimento.
A morte funciona desde o começo como um horizonte conhecido, enquanto Ivan, o personagem principal, passa boa parte da narrativa tentando não saber aquilo que já sabemos. A partir da psicanálise, poderíamos costurar o romance com temas como negação da morte, narcisismo, retorno ao infantil, luto, transitoriedade, melancolia e perda dos ideais.
Ivan Ilitch passa boa parte da vida construindo aquilo que o psicanalista Christopher Bollas chamaria de uma existência organizada em torno de formas socialmente disponíveis do self (carreira certa, casamento certo, casa certa, relações certas) e só diante da morte começa a suspeitar de que talvez tenha vivido uma vida que não era exatamente a sua.
Freud escreve que, no plano do inconsciente, temos dificuldade de representar a própria morte. Quando tentamos imaginá-la, continuamos de algum modo presentes como espectadores. No contexto do livro, a proximidade com uma leitura de falso self é grande. Mas não no sentido simplificado de “personalidade falsa”, mas de uma organização adaptativa que protege necessidades espontâneas que parecem incompatíveis com o que o ambiente espera.
Ivan também tem algo do que atualmente poderíamos chamar de uma organização normótica: investimento excessivo no funcionamento correto, nas coisas, nas convenções, na vida exterior, acompanhado de empobrecimento da experiência subjetiva.
Há talvez uma tese implícita na obra de que a negação da morte participa diretamente de uma certa inautenticidade em relação à vida. Se minha vida é infinita, sempre posso começar depois, posso adiar o desejo ou passar décadas ivendo segundo expectativas externas. E não à toa a consciência da morte é tão desorganizadora para Ivan. Ela retira dele uma espécie de crédito temporal infinito.
Negar a morte permite a Ivan sustentar uma identidade quase inteiramente composta por identificações. São identificações socialmente reconhecíveis e legitimidas. A proximidade da morte arranca uma por uma.
Fora desses papéis, quem é Ivan?
Freud já era adulto quando Tolstói publicou A morte de Ivan Ilitch. A novela foi publicada em 1886. Freud nasceu em 6 de maio de 1856, então tinha 29–30 anos nessa época. A psicanálise, porém, ainda não existia como campo constituído. Em 1886, Freud estava no começo da carreira médica, trabalhando sobretudo com neurologia.
Em Ivan Ilitch aparecem, antes da formulação psicanalítica, coisas que depois poderíamos chamar de defesa, regressão, conflito entre experiência e consciência, falsificação coletiva da realidade, investimento narcísico no status, retorno de lembranças infantis e uma espécie de crise das identificações sociais.
E, ao longo do livro, percebemos que Ivan não sofre apenas porque vai morrer. Também sofre porque precisa morrer entre pessoas incapazes de estar com ele. O texto de Tolstoi também é sobre aquilo que acontece quando a morte passa a participar diretamente de uma relação. A morte é é o centro em torno do qual o texto reorganiza retrospectivamente a vida de Ivan. Também é um paradigma que permite distinguir relações baseadas em reconhecimento de relações baseadas em função. É um muro por introduzir uma experiência que nenhum outro pode viver por Ivan. E ainda é um caminho porque, quando deixa de ser negada, torna possível uma forma de encontro que Ivan praticamente desconheceu durante sua vida.



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