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O inconsciente receptivo de Christopher Bollas

Pintura de Georges de La Tour (c.1635 - c.1637)
Pintura de Georges de La Tour (c.1635 - c.1637)

Para o psicanalista Christopher Bollas, o inconsciente receptivo é uma ampliação importante do inconsciente freudiano. Sua provocação é de imaginar que nem tudo o que entra no inconsciente entrou necessariamente por ter sido recalcado.


A formulação mais explícita do inconsciente receptivo amadurece sobretudo no período de O Momento Freudiano, cujos textos foram elaborados em 2006 e publicados em livro em 2007. Mas Bollas não está propondo dois inconscientes. Em A Questão Infinita, ele esclarece que “reprimido”, “recebido” e pré-consciente são formas diferentes de pensamento inconsciente, não três compartimentos mentais.


Bollas diz que a organização inconsciente pode tanto receber quanto reprimir ideias e que quer privilegiar conceitualmente justamente a função receptiva, que teria recebido pouca atenção na psicanálise. Essa ideia é a consequência de aproximadamente vinte anos de elaboração. Ou seja, tem origem nos conceitos de o conhecido não pensado, o objeto transformacional e o momento estético. Experiências que entram na constituição do sujeito antes que possam ser pensadas linguisticamente. Em Sendo Um Personagem, Bollas desenvolve os genera, talvez o antecessor conceitual mais direto do inconsciente receptivo.


Freud, em 1912, recomendava que o analista use da sua atenção uniformemente suspensa e compara o analista a uma espécie de receptor telefônico. O inconsciente do analista deve funcionar como um “órgão receptor” diante do inconsciente do paciente. Em momentos posteriores, Freud também deixa explícito que o inconsciente não é um depósito imóvel de conteúdos reprimidos. Ele é vivo e dinâmico, desenvolve-se, recebe impressões da vida e mantém relações de cooperação com outros sistemas psíquicos.


"Again, if we return to the history of psychoanalysis we can see that all theoretical schools adopted Freud’s theory of repression and dropped his theory of reception. Instead of following the logic of sequence within the multiple lines of thought presented in a session, analysts opted to listen for derivatives of repressed material. They were, that is, engaged in a selective listening which unwittingly mirrored the selective activity of repression itself. By centring a theory of the unconscious so exclusively around the theory of repression, psychoanalysis thus came to enact the very defence it privileged. It became a repressive force, pushing out of the mind of both participants a much wider and deeper world of meaning. (Bollas em Infinite Question)

Bollas percebe aí uma possibilidade metapsicológica de exploração: Freud havia destacado um inconsciente que recalca, mas deixou algumas pistas de um inconsciente que recebe. Há ainda uma filiação winnicottiana forte. A relação inicial mãe-bebê fornece a Bollas um modelo de subjetividade em que o mundo externo efetivamente entra em nós e nos transforma. 


O inconsciente receptivo, em Bollas, é a parte do funcionamento inconsciente que recebe experiências e continua trabalhando sobre elas sem que elas precisem ter sido conscientes primeiro. Bollas, portanto, propõe complementar a teoria da repressão, que “bane o indesejado”, com uma teoria da recepção. Certas ideias e sentimentos são, por assim dizer, enviados ao inconsciente para poderem se desenvolver sem a interferência da consciência. Estamos aqui tentando falar de um processo contínuo e criativo de assimilação e elaboração da experiência e, se o inconsciente recalcado está mais relacionado ao conflito, o inconsciente receptivo se relaciona mais proximamente com a criatividade.


O inconsciente receptivo funciona um pouco como uma incubadora psíquica, um inconsciente mais produtivo do que proibitivo, o que o aproxima do conceito de genera psíquica em Bollas. Em Sendo Um Personagem, ele descreve os genera como configurações em formação nas quais diferentes unidades de experiência vão se agrupando.


"In effect, the theory of repression—allowed to occupy sole place within the history of psychoanalysis as the theory of the unconscious—eliminated unconscious perception, unconscious organisation and unconscious communication from psychoanalytic theory. It was, and remains, a rather remarkable act of auto-castration" (Bollas em Infinite Question)

E o que isso muda na vida de um analisante? E de um clínico? O eixo da anális se desloca de “descobrir o que foi reprimido” para também acompanhar “o que está tentando nascer psiquicamente”. Lembranças vagas, músicas que ficaram na cabeça, uma assosiação inesperada, um interesse novo deixam de ser tratados somente como possíveis disfarces de um conflito recalcado. Podem ser sinais de que o inconsciente está trabalhando, juntando elementos e formando uma nova configuração.


De certa maneira, Bollas está criticando uma psicanálise excessivamente orientada para localizar rapidamente o conflito reprimido, para dar privilégio à sequência das associações e a organização que vai aparecendo nelas.


Mas esse assunto também merece uma atenção especial. Bollas problematiza que a própria palavra “inconsciente” cria uma dificuldade porque pode designar tanto conteúdos inconscientes quanto processos inconscientes que organizam esses conteúdos. Falar “o inconsciente” pode fazer parecer que existe uma espécie de entidade ou compartimento dentro da pessoa. No início, processo inconsciente e conteúdo inconsciente são um. Forma e conteúdo vão se constituindo juntos. Bollas usa a música como comparação: em Brahms, para dizer que não faz muito sentido separar totalmente o modo de compor das ideias musicais”. Ambos formam uma unidade orgânica.


O contraste entre inconsciente recalcado e receptivo seria importante porque, do ponto de vista teórico, Bollas acha que a tradição psicanalítica hipertrofiou uma dessas operações: a do recalque. No começo de A Questão Infinita, ele lembra que Freud reconhecia uma enorme quantidade de conteúdos inconscientes não recalcados, mas que a psicanálise posterior praticamente tornou “inconsciente” sinônimo de “recalcado”.


Mas isso não significa que o sujeito ou recalca ou recebe. Uma experiência recebida pode posteriormente tornar-se conflitiva e sofrer recalque, afinal. Tentar decidir se “aquilo” pertence ao inconsciente receptivo ou ao inconsciente recalcado perde justamente a complexidade que Bollas está insistindo em recuperar.

 
 
 

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