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O Eu Terceirizado

"Hope of a Condemned Man III" de Joan Miró (1974)
"Hope of a Condemned Man III" de Joan Miró (1974)

Há algo de uma fantasia contemporânea em continuar produzindo efeitos mesmo quando você não está presente naquilo. Continuar produzindo efeitos no mundo diminuindo progressivamente a quantidade de presença necessária, quase como uma versão tecnológica da ilusão infantil de onipotência.


Uma das grandes palavras definidoras desse espírito é a automação. Pagamento automático, resposta automática, legenda automática, tradução automática, recomendação automática, relacionamento automático, decisão automática. Há uma promessa quase metafísica embutida: seja você precisando cada vez menos de você.


A psicanálise tem uma formulação muito mais interessante do que a intuitiva segundo a qual seres humanos simplesmente “buscam prazer”. Boa parte da vida é organizada para reduzir tensão, surpresa, espera, esforço, conflito e incerteza. Talvez, ironicamente, tenhamos levado esse projeto longe o suficiente para começar a desejar também a vislumbrar eliminar o pequeno incômodo de ter que participar da própria existência.


Uma vida em que funções inteiras de si vão sendo distribuídas para plataformas, métricas, agentes e bots auxiliares. Winnicott chamaria nossa atenção para o gesto espontâneo. Aquele pequeno movimento no qual alguém sente uma fisgada de autenticidade no gesto. Não simplesmente o corpo executou a ação, mas alguma coisa daquela ação partiu de uma certa espontaneidade que também gera vitalização. Uma parte da ansiedade contemporânea talvez venha dessa dificuldade de reconhecer esse ponto de origem: eu realmente quis isso ou apareceu para mim tantas vezes que passei a achar que queria?


É possível, portanto, viver cercado de personalização digital e, ao mesmo tempo, sentir uma curiosa despersonalização. Tudo conhece nosso gosto e ainda assim permanecer aquela impressão de que nada ou ninguém exatamente nos alcança em nosso cerne.


Há também uma mudança interessante na fantasia de poder. Durante muito tempo, ser poderoso significava conseguir fazer muita coisa. Já agora começa a significar conseguir não precisar fazer. Levada ao extremo, a opulência contemporânea parece caminhar para uma estética da possibilidade ausência.


Talvez por isso exista simultaneamente tanta fascinação por controle e tanta ansiedade com perder o controle, são movimentos irmãos. Quanto mais conseguimos antecipar, rastrear, prever e automatizar, mais intolerável parece aquilo que escapa. A vida real e o acaso começa a parecer uma falha do sistema.


Para a psicanálise, a angústia não é um bug removível da experiência humana. Somos seres para quem a própria existência não vem com instruções suficientes. Nenhum algoritmo ou codificação irá resolver o problema da angústia. Em algum lugar continuará sobrando aquela sensação de que é necessário decidir se esta vida parece sua.


Os agentes de IA tornam essa fantasia mais nítida porque deslocam a IA de uma posição de ferramenta para uma posição de substituto. Se eu estabeleço um objetivo, regras, quem sabe um estilo, alguma coisa continua agindo em meu nome. O sonho começa a ser o de multiplicar a própria agência sem multiplicar a presença. Logicamente, ter dinheiro, empregados, burocracias, máquinas já permitiam anteriormente esse agir à distância. Só que isso estava reservado a certas posições de poder. Freud descreve o ego, entre outras coisas, como uma instância que percebe, avalia, adia, negocia, testa a realidade. Várias dessas operações começam a poder ser parcialmente delegadas.


Bion provavelmente aqui seria bem interessante de trazer. Há um sonho tecnológico de possuir uma função alfa externa e permanente: um sistema alheio recebe a avalanche caótica de de estímulos do mundo e devolve apenas aquilo que precisamos pensar. Há então uma fantasia para nossa época de agência sem carregar o peso subjetivo de ser agente. Daí aparece uma fantasia ainda maior que a da produtividade, a de estar ausente sem deixar jamais de agir. Quase vencer uma das limitações mais básicas da existência humana: um lugar de cada vez.


Seria a IA uma ferida narcísica para a humanidade ou um anabolizante narcísico? Como ferida narcísica, ela repete algo que Freud já identificava em outras grandes descentrações do humano: Copérnico tirou a Terra do centro, Darwin tirou o homem do topo da criação, a psicanálise tirou o eu do comando da sua própria casa. A IA acrescenta uma ferida diferente: aquilo que eu tomava como sinal privilegiado da minha humanidade pode ser produzido sem mim.


Mas a IA também funciona como um enorme anabolizante narcísico, pois ela aumenta a potência aparente do eu. Transforma-se numa prótese de competência. Então a Inteligência Artificial cria uma situação narcísica bastante peculiar: simultaneamente diminui e engrandece. E essas duas mensagens chegam juntas. Mas como qualquer anabolizante, pode aumentar rapidamente algo sem produzir na mesma proporção a estrutura que sustenta.

 
 
 

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