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O irmão como o primeiro outro parecido demais

"Cain Killing Abel" de Lucas van Leyden (1529)
"Cain Killing Abel" de Lucas van Leyden (1529)

A literatura psicanalítica clássica sobre irmãos é surpreendentemente dispersa. Em Freud, o tema aparece em pontos decisivos (a curiosidade sexual infantil, romance familiar, fantasia de espancamento, caso do Pequeno Hans e o pacto de irmãos de Totem e tabu), mas quase sempre de forma um tanto paralela.


O psicanalista René Kaës ofereceu uma teoria propriamente explícita do complexo fraterno, entendido como um verdadeiro complexo, irredutível ao Édipo, organizado por rivalidade, curiosidade, amor, ambivalência, identificação e alianças inconscientes. Ele fala da relação entre irmãos como operador central de alianças, heranças e lugares dentro da família.


Outra autora, Juliet Mitchell fez uma crítica importante ao “viés vertical” da psicanálise e ao reducionismo da relação entre irmãos tão somente enquanto rivalidade, propondo o eixo horizontal dos irmãos como organizador da mente e da vida social. Luis Kancyper também sistematizou, dentro do contexto latino-americano, as funções do complexo fraterno.


Freud afirma que o problema da origem dos bebês costuma ser despertado pela “indesejada chegada” de um irmão ou irmã. Os irmãos entram na teoria não apenas como competidores por amor, mas como disparadores da investigação e da curiosidade infantil e da triangulação com os pais. No geral, o entendimento é de que a rivalidade fraterna não substitui o Édipo, mas o complexifica: o novo bebê redistribui investimento materno, rivaliza por lugar e ativa fantasias agressivas.


Já o psicanalista Ferenczi inverte a direção clássica: noi lugar da criança adaptar-se à família, a família deve adaptar-se à criança, oferecendo um ambiente acolhedor. Parece algo simples, mas isso desloca a rivalidade do plano exclusivamente pulsional para o plano da distribuição ambiental do acolhimento, do tato e do reconhecimento, elementos centrais para a clínica e a teoria de Ferenczi. A rivalidade entre irmãos torna-se índice da qualidade da matriz familiar e não apenas como derivado do Édipo. Assim, a relação fraterna passa a ser pensada como campo de lugares distribuídos (o filho bem-vindo, o filho mal acolhido, o substituto etc.).


Winnicott, em resumo, contribui para a compreensão de que o sintoma da criança não pode ser lido isoladamente. Ele fala da organização relacional inteira, do lugar que cada um ocupa e da qualidade da sustentação ambiental. A triangulação se torna mais ecológica. Isso faz da relação entre irmãos uma peça fundamental da arquitetura do amadurecimento.


Em René Kaés, mais do que inveja e ódio, o fraterno inclui amor, ambivalência, curiosidade, atração, rejeição e identificações com o semelhante-diferente. Inveja, ciúme e ódio não esgotam a fratria, mas tampouco podem ser minimizados: eles são parte constitutiva da relação com o semelhante. Na compreensão de uma psicanálise que destaca o intergeracional, os irmãos não são apenas sujeitos lado a lado, mas um grupo com funções de transmissões, defesas, heranças, substituições e pactos.


No geral, a relação fraterna é uma força emocional duradoura, carregada de intimidade, hostilidade, espelhamento e impacto no desenvolvimento. Os irmãos também “colorem” o desenvolvimento emocional e as relações posteriores.


O irmão como espelho inquietante


Um conceito psicanalítico importante para pensar essa relação entre irmãos é a do narcisismo de pequena diferença. O irmão costuma ocupar um lugar perigosamente próximo. E justamente por ser tão próximo, qualquer pequena diferença ganha uma força enorme. E quanto mais parecido o outro é comigo, mais ameaçador pode se tornar aquilo que nos distingue. A pequena diferença entre irmãos pode ser mínima, mas psiquicamente gigantesca:


Um desconhecido bem-sucedido pode incomodar, mas um irmão bem-sucedido pode ferir em outro registro. Um desconhecido amado pode despertar inveja, mas um irmão amado pelos pais pode tocar numa ferida primária.


O narcisismo da pequena diferença ajuda a entender por que irmãos podem brigar por coisas aparentemente pequenas: quem sentou na frente, quem ganhou mais atenção, quem foi mais protegido, quem foi mais cobrado, quem teve mais liberdade, quem herdou tal objeto, quem recebeu tal elogio. Algo como uma pergunta: “Qual filho eu fui em comparação com meus irmãos?” O irmão traz de volta o lugar, a hierarquia, a cena primitiva. Diante dos pais, a gente regride. Diante dos irmãos, a gente é relançado para uma cena original.


O irmão é também uma espécie de espelho deformante. Ele mostra uma versão possível de mim. Um irmão pode odiar no outro uma liberdade que ele próprio reprimiu. Às vezes ataca o irmão não pelo que ele é, mas pelo lugar que ele ocupa na fantasia familiar.


Mas um outro ponto interessante é que a necessidade de diferença também é um operador organizacional. omo se cada um dissesse silenciosamente: “Para eu ser alguém, preciso não ser você.” Daí também podem surgir personagens familiares rígidos: a rebelde, o certinho, a problemática, o bem-sucedido, a sensível, o egoísta, o frágil, o forte, o ingrato, o cuidador etc. Cada irmão passa a sustentar um papel para que o sistema familiar continue funcionando.


Quando se fala do irmão, fala-se do lugar


Podemos entender que a relação entre irmãos não é apenas rivalidade, mas também coformação estética. Quando há irmãos, eles funcionar como variantes da mesma cena: quem foi o bom filho? Quem traiu a família? Quem escapou? Quem permaneceu leal?


A psicanálise, assim, começa por lateralizar o fraterno. A vida psíquica não se organiza só no eixo vertical pai-mãe-filho. Também se decide no eixo horizontal da semelhança, da rivalidade e da coabitação com o semelhante.


Portanto, o irmão não é simplesmente “mais uma pessoa”. É aquele que vem do mesmo lugar, fala a mesma língua familiar, disputa o mesmo olhar, ocupa a mesma casa, carrega o mesmo sangue, mas é diferente. Por isso ele é tão importante psiquicamente: ele é semelhante o bastante para ameaçar minha singularidade e, ao mesmo tempo, diferente o bastante para revelar o que não sou. Em termos clínicos, quando alguém fala de um irmão, quase nunca fala apenas do irmão. Fala do lugar que ocupou na família.



 
 
 

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