Filme "O Drama" (2026) - Resenha Psicanalítica
- Rafael Santos
- há 2 dias
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O filme The Drama (2026), de Kristoffer Borgli, estrelado por Zendaya (Emma) e Robert Pattinson (Charlie), acompanha um casal noivo cujo relacionamento é abalado por uma revelação inesperada na semana que antecede o casamento. Emma confessa, em uma situação casual, ter planejado um tiroteio escolar na adolescência, uma revelação que choca Charlie e os amigos padrinhos. A partir dessa premissa, o filme explora temas como idealização do outro, culpa social, amor e narrativa conjugal sob a perspectiva de uma comédia que se baseia no constrangimento e na tensão.
Na psicanálise, é comum escutarmos que a admiração entre parceiros costuma decorrer da projeção de ideais no outro. O filme mostra que essa admiração é frágil quando a imagem projetada desmorona. Em O Drama, Charlie fica aterrorizado ao confrontar a parte sombria do passado de Emma. O filme dramatiza isso no jogo de “qual foi a pior coisa que você já fez?".
O filme lida indiretamente com a cultura de armas nos EUA: Emma relata que foi atraída pelas comunidades online de violência armada enquanto estava sentindo-se marginalizada na escola, mas abandonou o plano ao ver os efeitos devastadores de outro tiroteio em sua cidade, passando a advogar pelo controle de arma. Apesar de não se deter nesse tema, a arma simboliza um objeto de poder e identificação falsa (uma “solução” violenta para dores internas). Quando Emma encontra apoio em amigos e no ativismo, ela abandona o “gozo perverso” associado à arma. O filme aborda indiretamente o debate sobre controle de armas, mas o foco está em como essa temática afeta a dinâmica do casal.
O título – The Drama – remete à ideia de encenação: a vida como palco. Shakespeare escreveu que “todo o mundo é um palco” e comparou a vida a uma peça com entradas e saídas de atores. Em O Drama, Emma e Charlie buscam “recomeçar” a relação como se apertassem uma claquete de cinema ou desenrolassem as cortinas do teatro, ecoando essa ideia de vida dramática. Além disso, os conflitos morais do filme (culpa, julgamento, hipocrisia) têm ecos em dramas shakespearianos que tratam de traição e perdão. A importância do discurso no casamento reforça o sentido teatral. Em uma série de momentos, o filme brinca com a ideia de “recomeçar a cena” caso algo dê errado, como num texto dramático que permite retomar do início.
O Drama é uma comédia dramática que explora situações absurdas e constrangedoras. Ou seja, o “drama” cotidiano de um casal normal. De outro, enfatiza o caráter dramático da crise: a revelação do segredo de Emma desencadeia um conflito que mais parece espetáculo teatral (com discursos, reações excessivas). Em suma, o nome destaca que o amor deles se transformou num grande drama ético, envolvendo plateia (familiares e amigos) e cena pública (o casamento).
A melhor amiga de Emma reage exageradamente, expulsa Emma do “grupo”, sugerindo que nossos julgamentos morais (e o desejo de “demonstrar virtude”) criam muros. Charlie questiona se deve ou não desistir da noiva por causa de um ato adolescente, mostrando um tanto sobre o medo de ser contaminado pelo passado do outro. A atuação dos dois atores principais consegue criar muito bem essa tensão contínua no filme entre apoio e a repulsa.
Admiramos no outro traços que nos devolvem a um senso de si idealizado. Porém, ideal é inseguro: assim que o parceiro mostra facetas que não se encaixam nesse ideal, a projeção fracassa e o afeto pode virar distanciamento. Em um sentido mais psicanalítico, apaixonamento e admiração estão ligados a processos inconscientes de identificação e projeção: amamos (e admiramos) quem nos completa ou nos revela nosso ideal, e nos afastamos quando a imagem idealizada racha ou quebra.
O casal fica ligado por um sistema inconsciente compartilhado, com projeções, identificações projetivas e fantasias mútuas. Um casal é uma intensa unidade relacional. Entre outras questões, O Drama mostra a tensão em relação à capacidade de sustentar uma história em que o outro continue sendo alguém valioso, mesmo quando deixa de coincidir com a fantasia inicial.
A literatura que trata da psicanálise de canais insiste que o casal não é mera soma de dois indivíduos. Há sim uma terceira realidade, um “nós” com fronteiras, sentidos e projeto comum. Para esse “nós” existir, não basta desejo ou atração, é preciso uma narrativa compartilhada que organize quem somos, por que estamos juntos, o que admiramos um no outro e o que fazemos com o que não encaixa.
Essa admiração narrativa importa porque o amor durável não se sustenta só por afeto bruto, mas por significação. Em outras palavras: o casal precisa contar a si mesmo uma versão minimamente habitável da sua história. Quando isso falha, o parceiro vira obstáculo, acusação ou decepção.
Talvez fazendo um link com o filme anterior do diretor, Sick of Myself, a história mostra que a admiração narrativa pode ser mais importante do que a admiração puramente estética ou narcísica. O vínculo conjugal é uma estrutura intersubjetiva em que ambos ocupam o lugar do desejo e da realização do desejo do outro.
Há ainda um ponto decisivo: a admiração narrativa ajuda o casal a transformar conflito em capítulo. Afinal, conflitos não são necessariamente destrutivos, podem ser inclusive necessários.
Na filosofia, um autor associado à noção de identidade narrativa é Paul Ricoeur. Ricoeur entende que a identidade narrativa é uma forma de responder à pergunta “quem?”. Uma identidade interpretada em formato de história. O eu se torna inteligível pelo enredo que articula acontecimentos, decisões, continuidades e rupturas.
Dentro desses termos, um casamento se sustenta enquanto os dois conseguem responder, juntos, à pergunta: quem somos nós? Essa resposta nunca é dada de uma vez por todas. Ela vai sendo narrada, revisitada. É justamente por isso que tensões conjugais podem ser são tão desorganizadoras: elas não atingem apenas o humor do casal, mas a história que o casal contava sobre si.
Uma traição, uma confissão perturbadora, uma perda de admiração, uma sensação de tédio, uma mudança de desejo. Tudo isso não produz só decepção, dor ou raiva, produz uma crise de enredo. Uma tensão conjugal costum ser um conflito entre a vida vivida e a vida narrada. O parceiro deixa de parecer coerente com o personagem amoroso que ocupava.
Se identidade narrativa é o modo como uma vida ganha unidade por poder ser contada, então o casal também depende de uma narrativa para existir como “nós”. O problema mostrado no filme é como continuar com a falência do enredo posto anterior? Depois da confissão e até mesmo da reação dos padrinhos, o texto passa a ser outro.
A admiração narrativa é um dos elementos psíquicos na vida de um casal. A confissão da personagem de Zendaya não funciona apenas como choque moral, mas como ruptura narrativa. Ela implode a versão que sustentava a admiração. De repente, o parceiro vivido por Robert Pattinson já não pode mais amá-la do mesmo lugar. E o filme mostra que o problema não é apenas “o que ela fez” ou planejou, mas o abalo na história que eles contavam sobre si mesmos depois disso.
No lugar de reduzir o amor a química, o filme trata o amor como construção simbólica quase teatral. E, no fim, a pergunta é se ainda há história possível. Desde a origem do teatro, o drama nasce justamente da necessidade humana de pôr em cena conflitos que não cabem na vida. O amor participa dessa mesma lógica, pois o que o filme mostra tão bem é que ninguém ama fora de uma cena.



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