Filme Backrooms (2026) - Explicação e resenha psicanalítica
- Rafael Santos
- há 2 dias
- 7 min de leitura

Clark é um arquiteto, proprietário de uma loja de móveis, cuja vida está desmoronando: o casamento terminou, a empresa está fracassando. Ele faz terapia com Mary, uma terapeuta com traumas próprios (mãe agorafóbica). Preocupado com despesas estranhas na loja de móveis que administra, Clark investiga o porão e descobre uma fresta luminosa na parede. Ao atravessá-la, cai num espaço extradimensional, o Backrooms, um emaranhado labiríntico de salas amareladas e móveis deformados.
Segundo relatos, os Backrooms surgiram em 2019 num fórum do 4chan e logo viralizaram na internet, tornando-se “uma lenda urbana conhecida. O filme parte dessa mitologia digital: entre memes e realidade virtual, jovens compartilham fantasias de espaços liminares. A estrutura labiríntica lembra jogos de videogames como Doom.
Cada geração constrói a casa mal-assombrada que corresponde à sua experiência histórica. Em outras épocas, o horror estava no castelo, no sótão familiar, no porão doméstico, no hotel ou na pequena cidade. O Backroom é a casa mal-assombrada de pessoas que cresceram em shoppings, escolas padronizadas, escritórios vazios, videogames em primeira pessoa, interfaces digitais e espaços corporativos praticamente idênticos em qualquer cidade.
O fenômeno nasceu na internet porque sua estrutura é semelhante à própria internet. É potencialmente infinito, formado por conteúdos repetidos, cópias, objetos abandonados, caminhos sem destino e presenças invisíveis que talvez estejam observando. O usuário se move continuamente, mas não necessariamente chega a algum lugar.
Backrooms lembra jogos como Doom pela perspectiva corporal do espaço: atravessar corredores, abrir passagens, ouvir algo antes de vê-lo, tentar construir mentalmente um mapa e perceber que uma criatura pode estar depois da próxima esquina.
Os cenários do filme são deliberadamente oníricos e claustrofóbicos. Um labirinto infinito de salas e corredores em tom amarelo e monocromático, assim como as luzes piscando. Essa estética liminar provoca no espectador uma sensação paradoxal de confinamento e vazio.
Assim, o Backrooms, no filme, é quase uma matriz psíquica projetada: fantasias e traumas dos personagens ganham forma concreta. Os corredores amarelos, os objetos fora do lugar, as salas sem função, as portas em lugares absurdos e os móveis que parecem ter sido lembrados por alguém que nunca viu um móvel produzem uma sensação muito particular: tudo é reconhecível, mas nada é verdadeiramente familiar.
O filme também trabalha com aquilo que Freud chamou de inquietante, mas o atualiza para uma geração criada entre shoppings, escritórios, videogames, vídeos comprimidos e imagens produzidas por computadores. O monstro principal de Backrooms não é uma criatura: é uma realidade que se lembra de nós de maneira imperfeita.
Antes de entrar nos Backrooms, Clark vive um estado psicodinâmico de negação e fuga. Ele recusa-se a encarar suas falhas financeiras e emocionais (a loja em declínio, o divórcio), mantendo defesas contra a culpa e o abandono. Na terapia, Mary já percebe que ele evita assumir responsabilidade (algo que ela aciona no clímax, lembrando que sua recusa o fez perder a esposa). Clark pode ser visto construindo uma “armadura” contra a angústia, tentando sustentar um senso de continuidade.
Antes de encontrar os Backrooms, Clark já vive dentro de uma espécie de corredor sem saída. Ele se percebe como vítima de uma série de fracassos exteriores, mas evita reconhecer a participação de suas escolhas na construção da própria vida. Clark é arquiteto e isso não é apenas uma informação do personagem secundária. Ele é alguém que deveria criar espaços habitáveis, mas não conseguiu construir um lugar psíquico para si.
Quando Clark passa a dormir na loja, ele já está vivendo num Backroom antes de encontrar os Backrooms. Ele habita uma simulação de lar. Isso sugere que houve um colapso das separações fundamentais de sua vida. Trabalho e descanso, público e privado, exposição e intimidade deixam de possuir fronteiras. A loja também funciona como uma defesa contra o luto. Voltar para um apartamento vazio confirmaria a perda da vida conjugal. Dormir no trabalho permite permanecer ocupado, anestesiado e cercado por objetos que reproduzem a aparência da domesticidade.
Quando Clark atravessa a parede, ele não encontra apenas um lugar, mas uma solução. Pela primeira vez em muito tempo, ele possui algo excepcional. É o descobridor de uma nova dimensão. No lugar de elaborar a perda, Clark encontra um mundo no qual a perda parece anulada. Em um momento do filme, ele fala que “abriu uma janela” e que não pretende voltar. A frase se relaciona ironicamente com o discurso terapêutico de Mary sobre abrir uma janela interior.
Para Clark, o Backrooms não é apenas um local físico, mas uma dimensão psíquica concreta. O espaço é descrito como “uma cópia defeituosa e distorcida da realidade”, sugerindo que percebe aquele lugar como reflexo de seu próprio mundo interno. Em termos de teoria psicanalítica, o Backrooms funciona como um espaço mental onde fantasias e ansiedades manifestam-se materialmente. Cada sala e criatura no Backrooms atua como figuração viva conflitos internos de Clark: por exemplo, o Pirata Clark gigante encarna seus impulsos destrutivos projetados. Dessa forma, o filme transforma o conflito psíquico do protagonista em cenários palpáveis.
Clark é confrontado pelo Backrooms, uma espécie de “casca psíquica” que o isola do mundo real, mas que só existe devido ao seu próprio desmoronamento emocional.
O conceito de mental space, ideia de que existe um espaço intermediário entre fantasia e realidade onde o sujeito se move, serve para interpretar o filme. Backrooms materializa esse conceito: o espaço híbrido do filme só existe porque o psiquismo de Clark lhe confere realidade. Os cenários labirínticos são o resultado de fantasias internalizadas, como se o filme fosse a realização concreta do “palco mental” onde se desenrolam conflitos.
Clark literalmente fica preso num espaço e sente-se perseguido pelas projeções dentro dele (seus “objetos que o perseguem”). Backrooms dramatiza o modo como conflitos inconscientes aprisionam o indivíduo em si mesmo, ilustrando um tipo de angústia claustro e agorafóbica em que o sujeito se vê preso aos conteúdos da sua própria mente. A postura muda de algumas figuras e o ambiente sem saída refletem a ideia de um espaço interno “rígido”, sem contato possível. Clark, por não encarar sua verdade interna, cria uma espécie de mundo sem fala onde o doloroso não pode ser simbolizado, apenas encenado.
No contexto da história, os Backrooms não são apenas uma alucinação de Clark. A dimensão existe dentro da realidade do filme, é administrada pela empresa Async e também é experimentada pela terapeuta.
A Async era uma empresa ligada a equipamentos de ressonância magnética e passou a estudar os Backrooms depois de descobri-los. O filme não confirma que a organização tenha criado a dimensão nem que saiba controlá-la. Ela instala câmeras, armadilhas, envia pesquisadores e tenta mapear aquilo cuja origem permanece desconhecida.
Os Backrooms conseguem copiar a categoria, mas não a interioridade. Sabem que um rosto deve ter olhos, boca e pele, mas não compreendem inteiramente como esses elementos formam uma pessoa. Sabem que uma sala de jantar contém mesa, cadeiras e uma família, mas desconhecem o que transforma esse conjunto em convivência. Por isso, as criaturas parecem pessoas desenhadas por algo que observou seres humanos apenas de longe. Em termos psicodinâmicos, elas lembram objetos internos que foram privados de ambivalência e complexidade. Não são pessoas inteiras, são fragmentos.
As figuras do Backrooms são manifestações dos conflitos internos. Os humanoides que cercam Mary lembram partes congeladas ou dissociadas do Self. Essas deformidades sem nome e cores estranhas evocam os “casamentos simbólicos” do medo.
No plano literal, o monstro principal é a figura monstruosa ligada ao próprio Clark, especialmente sua persona publicitária deformada. Mas, no plano psicodinâmico, o verdadeiro monstro não é simplesmente “a mente”, mas aquilo que a mente não consegue transformar em experiência pensável. Por isso o monstro de Clark possui a aparência de Clark, mas não é reconhecido por ele como parte de sua própria organização psíquica. Trata-se de sua agressividade, de seu narcisismo ferido, de sua identidade comercial, de seu ressentimento devolvidos pelo espaço como corpo monstruoso.
Ao entrar no Backrooms, porém, essas defesas se destroem. Dentro dessa dimensão distorcida, Clark provoca a cena da terapia teatral. O protagonista enlouquece sob o impacto de seus conteúdos inconscientes, incluindo a projeção gigante do “Pirata Clark”.
Ao entrar no labirinto, Mary, a terapeuta, passa a vivenciar o espaço mental de Clark de dentro. Sua presença no Backrooms confronta Clark (e a si mesma) com os limites da transferência: ela é atacada, presa e quase devorada pelo mundo inconsciente alheio.
Para Clark, a cópia do passado acaba substituindo o presente. Para Mary, o vestígio do passado pode acompanhar o presente sem ocupá-lo inteiramente. Ela não precisa morar novamente na casa da infância, pode carregar uma parte dela. O discurso de Mary na fita funciona como uma chave de leitura do filme inteiro. Ela fala sobre os “ciclos” e hábitos nos quais as pessoas ficam presas e apresenta a ideia de “abrir a janela interior”, isto é, criar uma distância dentro de si para enxergar a própria experiência de outro ponto de vista. A ironia é que Clark transforma uma metáfora terapêutica em arquitetura literal. Em vez de abrir uma janela dentro da mente, pela qual poderia observar seus ressentimentos, suas escolhas e sua participação no fim do casamento, ele atravessa uma abertura física e entra nos Backrooms.
Os Backrooms tornam-se a concretização dos ciclos de Clark, um espaço aparentemente infinito no qual ele se movimenta muito, mas permanece psiquicamente no mesmo lugar. O filme mostra também recortes da história de Mary e a mãe para deixar claro que Mary também possui seus próprios Backrooms. Ela não é apenas a terapeuta lúcida que entra na mente desorganizada de Clark. Sua história pessoal já estava organizada em torno de espaços fechados, medo do exterior, memória e separação. Nesse sentido, Mary e Clark são personagens espelhados. A diferença é a maneira como cada um se relaciona com a perda.
Assim, os Backrooms não seriam apenas salas escondidas atrás da realidade, mas a representação de uma mente que já não consegue transformar o passado. A lembrança deixa de ser algo que o sujeito possui e passa a ser o lugar onde ele vive.



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