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Resenha psicanalítica de "Obsessão" (2026)


Como muita coisa na internet atual, a repercussão do filme Obsessão (2026) aconteceu em tons superlativos. Vi muitas publicações chamando de “o melhor terror do ano” e pequenos comentários extremamente impressionados. Hoje, quando um filme de terror minimamente interessante aparece, parece que a internet precisa imediatamente transformá-lo no filme de terror do ano. No entanto, o hype contrastou com pelo menos a frustração: pessoalmente achei a premissa básica e o filme deixou a desejar.


Obsessão integra a linhagem de filmes sobre obtenção de desejos, em que algo cumpre o pedido do protagonista, mas transforma o resultado em pesadelo. Bear, um rapaz tímido apaixonado, usa o recurso para fazer Nikki amá-lo. Num instante ela corresponde, mas de forma distorcida e violenta. O amor que ele desejou vira uma possessão tóxica.


Bear tem o desejo atendido, mas de forma distorcida, levando a consequências. Em termos psicanalíticos, Obsessão inverte os papéis de obsessão: inicialmente é Bear quem “soa obsessivo”, mas logo Nikki toma conta desse lugar. A protagonista inesperada torna-se a personificação do desejo mal resolvido de Bear. O filme capta algo muito bem: a realização sem filtro de uma fantasia pode ser uma espécie de pesadelo. Há desejos que só existem porque não se cumprem totalmente. Amores que dependem justamente da existência do outro enquanto outro, isto é, enquanto alguém que pode dizer sim, mas também pode dizer não. O terror de Obsessão é o fim da possibilidade do “não


O diretor balanceia ambas as faces do desejo obsessivo: a obsessão projetada (Nikki idealizada, “a namorada bonita, dedicada, sem autonomia) e a obsessão recebida (Bear, aterrorizado por essa parceira fora de controle). Em muitos momentos o filme explora essa psicodinâmica. Por exemplo, Nikki repete movimentos (como espreitar Bear dormindo) enquanto “outra Nikki” dorme, sugerindo que o corpo dela não lhe pertence mais.


Isso ilustra o horror do desejo não consensual: o que Bear deseja — ter Nikki tal como ela é, mas amando-o — acaba violando a identidade de Nikki. A situação é um espelho grotesco da fantasia masculina de controle: fazer a “namorada perfeita” existir à força.


Bear abandona o caminho simbolicamente possível (a comunicação, a possibilidade de perda e de não ter a reciprocidade do seu desejo) e salta direto para um desejo mágico.

O filme também me lembrou a ideia de limerência, o que pode se aproximar de um amor doentio ou erotomania. A limerência costuma vir acompanhada de pensamentos intrusivos sobre o objeto amado e medo paralisante de rejeição.


O filme expande a limerência para um patamar de horror: o amor unilateral realizado por um trunfo mágico vira uma exigência sufocante. Desejar algo absoluto pode destruir a alteridade do outro.


Além disso, não parece coincidência que o protagonista seja um homem tímido, sensível e um tanto deslocado. Em 2026, discute-se muito uma “crise da masculinidade”: a tensão entre ser vulnerável e as pressões sociais de potência. Vemos debates sobre toxicidade e a procura por “novas masculinidades”. Barkers filma Bear preso numa solidão urbana e figuras que compõem a cultura millennial/internet: homens sensíveis engatilhados por ansiedade social.


Outro ponto interessante do filme é que Bear quer Nikki “de volta” como antes, mas também quer que ela o deseje. Quer manter uma mulher como ela é e ao mesmo tempo transformá-la em mulher perfeita. Ele quer Nikki como ela era, mas sob o feitiço. Isso expressa um desejo impossível de personagem neurótico: ter tudo e ao mesmo tempo. Ele deseja reconquistar o amor de Nikki sem abrir mão da fantasia. No fundo, não quer admitir que o amor (ou o desejo) pode morrer ou mudar naturalmente.


Obsessão remete ao mito de Midas. Midas desejou que tudo que tocasse se transformasse em ouro. E a princesa amada virou estátua de ouro em seus braços. Aqui, Bear desejou que Nikki o amasse mais que tudo, e foi justamente isso que aconteceu. Mas… Um “amor” sobrenatural, sem sua vontade. Como Midas, Bear conquista o que quer mas descobre que o valor daquele desejo é mortal. O mito de Midas enfatiza o preço da ambição: desejos realizados sem respeito à ordem natural são amaldiçoados.


Um recurso marcante de Obsessão (e de muitos filmes de terror recentes, o que é um fenômeno muito curioso) são cenas de autoagressão. Parece que, de uns tempos para cá, sempre há alguém se batendo, se ferindo, perdendo o controle do próprio corpo, como se o corpo tivesse se tornado o último lugar disponível para dar choque no espectador.

Em uma época obcecada por autonomia, autocuidado, auto-estima, autocontrole, corpo saudável e otimizado, poucas imagens pelo jeito assustam tanto quanto a perda do comando sobre si. Então o terror, como sempre tão bem fez, devolve o avesso dessa exigência: um corpo que não obedece ou que ganha vontade própria e estrangeira.


Quando Nikki começa a machucar-se (esfaqueando o próprio rosto, por exemplo) ou a sangrar profusamente, o horror extrapola o sobrenatural e se torna corporal, visceral. Cenas assim explodem a violência e com a materialidade. A autoagressão remete ao tema do controle perdido.


Para o espectador, é ainda mais chocante porque quebramos uma barreira: hoje há mais abertura ao falar de depressão e automutilação, mas também cresce o horror de ver isso dramatizado de forma gráfica. Não há apenas a perda de controle psíquico, mas a perda de sua corporalidade.


Meu nome é Rafael Santos Barboza, sou psicólogo (CRP 06/142198) e psicanalista, atuando com atendimentos de forma remota/online.

 
 
 

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