Uma reflexão crítica sobre o termo "gatilho"

“Trigger” (em português, gatilho) parece ter entrado na Psicologia a partir de uma metáfora já costumeiramente usada para algo que “dispara” uma sequência de acontecimentos. O termo ganhou força sobretudo em contextos de condicionamento, trauma e dependência: certos sons, cheiros, lugares ou pessoas, por exemplo, podiam funcionar como pistas associadas a uma experiência traumática ou a compulsões, precipitando reações intensas e relativamente automáticas. A partir dos anos 80, com a consolidação dos modelos de prevenção de recaída, “trigger” passou a circular cada vez mais na linguagem clínica. Com o tempo, a expressão migrou para comunidades de sobreviventes de violência, para os trigger warnings na internet e, por fim, para a linguagem cotidiana, onde seu significado se ampliou bastante.
Christian Dunker também escreve que o uso psicológico do termo gatilho teria surgido no ambiente brasileiro nos anos 1990 ligado às campanhas contra drogas e à prevenção de recaídas. No Brasil, por exemplo, há um manual de Paulo Knapp e José Manoel Bertolote, Prevenção da recaída: um manual para pessoas com problemas pelo uso do álcool e de drogas, de 1994.
É necessário se perguntar, entretanto, o que se perde quando "gatilho" passa a funcionar como uma categoria genérica. Como outros termos batidos quando utilizados em contextos clínicos, há o risco de empobrececimento da descrição da experiência. Uma palavra não apenas descreve uma experiência, ela também participa da maneira como a experiência é organizada e comunicada. O vocabulário que usamos afeta a própria interpretação do sofrimento e, consequentemente, a sua experiência.
Nesse sentido, a linguagem inicialmente destinada a tornar experiências psíquicas pensáveis pode virar um repertório pronto. Originalmente, no campo do trauma, um gatilho é algo como uma pista interna ou externa associada à experiência traumática que provoca reações involuntárias: lembranças intrusivas, hiperativação, medo intenso, dissociação etc.
Um conceito psicanalítica que embaralha a concepção pavloviana estímulo-resposta de gatilho como algo simples e causal é o de après-coup: : um acontecimento posterior pode conferir retrospectivamente outro sentido a uma experiência anterior. Em um revólver, o gatilho já está ligado ao disparo por um mecanismo fixado. Na vida psíquica, entretanto, a relação entre uma cena presente e uma cena passada pode ser constituída somente depois, através de associações, fantasias, significantes, sexualidade, lembranças, novas significações e transferência. Estaríamos falando aqui, então, é de uma causalidade muito menos linear.
Dunker nesse texto usa a própria histeria para mostrar que algo semelhante ao que hoje chamamos de “gatilho” já era conhecido pela psicanálise: um significante específico podia se ligar a um complexo patógeno e precipitar alterações de consciência, dissociação e despersonalização. Por isso, uma prevenção completamente genérica é impossível. Nesse recorte de vídeo, Dunker fala sobre como a palavra gatilho também remete a uma concepção excessivamente reativa do sujeito, como se ele fosse apenas afetado de fora e respondesse automaticamente ao que lhe acontece.
Outro ponto discutido é que a categoria pode favorecer a evitação: “isso é meu gatilho, portanto preciso me manter longe disso”. Mas sabemos ao mesmo tempo que em quadros traumáticos a própria evitação costuma contribuir para manter o medo. Em Inibições, sintomas e ansiedade (1926), Freud propõe que a ansiedade funciona como sinal de uma situação de perigo, e o ego organiza defesas para impedir que essa situação se concretize. Em “Fear of Breakdown”, Winnicott sugere que algumas organizações defensivas protegem a pessoa de uma agonia primitiva que não pôde ser propriamente experienciada quando ocorreu. Thomas Ogden desenvolve isso no artigo “Fear of Breakdown and the Unlived Life”: o sujeito pode passar a vida organizando-se para não encontrar uma experiência que, paradoxalmente, já aconteceu.



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