Resenha psicanalítica do filme "O Aniversário"

Em O Aniversário (Anniversary, 2025), Ellen, professora universitária, e Paul, proprietário de um restaurante, comemoram 25 anos de casamento ao lado dos filhos, aparentemente unidos por uma vida confortável e afetuosa. A chegada de Liz, namorada do filho Josh e ex-aluna de Ellen, desencadeia tensões familiares quando a professora reconhece na jovem a autora de ideias políticas autoritárias que havia contestado anos antes.
Durante os cinco anos seguintes, a transformação dos Estados Unidos em uma sociedade autoritária acompanha a desintegração da família Taylor. O filme começa no 25º aniversário de casamento de Ellen e Paul e termina na comemoração dos 30 anos. Entre esses dois momentos, acompanhamos os personagens em diferentes reuniões. A casa perde móveis, livros, fotografias e cortinas ao longo dos anos. A câmera, inicialmente fluida, torna-se progressivamente contida, sugerindo uma espécie de aprisionamento doméstico.
O espectador, portanto, é levado a perceber o autoritarismo pela transformação das relações íntimas. Há uma contradição produtiva entre o aniversário, que celebra a permanência, e A Mudança, que proclama a necessidade de substituir a ordem anterior.
No seu livro, Liz defende uma reorganização política dos Estados Unidos baseada na unidade nacional e na superação do pluralismo partidário. A proposta explícita do trabalho é um sistema de partido único. Liz fala na superação de todos os partidos e na dissolução de divisões entre esquerda e direita. O filme também apresenta, de forma mais breve, a defesa de programas de reeducação infantil. Na última festa, Liz anuncia avanços em um projeto legislativo dessa natureza. Assim, o movimento deixa de controlar somente a política e começa a disputar a formação das gerações.
Na bandeira utilizada pelo movimento, o conjunto de estrelas passa para o centro das listras. A explicação de Liz é que os americanos precisam se encontrar no centro. A substituição da bandeira também indica que o movimento não se limita a propor reformas, mas almeja a redefinição da política.
Um símbolo nacional como uma bandeira ajuda a produzir identificações e uma narrativa compartilhada sobre quem pertence à comunidade. Na bandeira americana original, as 50 estrelas representam os estados da federação. No filme, elas são deslocadas do canto superior esquerdo para o centro da bandeira. Os americanos deveriam abandonar as divisões políticas e se encontrar no centro. Essa imagem aparentemente conciliadora encobre um projeto de concentração de poder. É uma bandeira ao mesmo tempo familiar e estranha.
A Cumberland Company financia a divulgação do livro e participa da expansão do movimento, assim como oferece oportunidades científicas, financia atividades políticas e aparece associada ao projeto de reeducação infantil. O filme permite ler o autoritarismo como algo que precisa de organizações e infraestrutura para se consolidar.
Ao longo do filme, os drones aparecem gradualmente e passam a patrulhar as ruas, inclusive à noite. A imagem é importante porque a família deixa de ter um espaço privado. A família é um ambiente de formação das disposições subjetivas e também um espaço que sofre os efeitos das transformações históricas. Em Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921), Freud investiga como identificações compartilhadas e ideais comuns organizam vínculos coletivos e a relação dos indivíduos com figuras de autoridade. Em Educação após Auschwitz (1966), Adorno procura compreender as condições subjetivas e sociais que possibilitam a barbárie.
Em "A instituição e as instituições", Franco Fornari escreve, resgatando Winnicott, que a instituição família sempre vive à beira de um desastre (“la familia vive como si estuviera siempre al borde del desastre”). Essa leitura impede que a família seja apresentada como um organismo perfeitamente saudável, destruído exclusivamente pela chegada de Liz. Ela também possui conflitos e fragilidades que a crise política torna mais visíveis.
O filme permite pensar a família como um lugar onde a violência social ganha uma forma íntima e concreta. Mostra ainda como a promessa de superar as divisões políticas pode esconder a exigência de silenciar as diferenças. Há, no entanto, algumas limitações ou, talvez, escolhas. O filme acompanha a instalação de um regime autoritário pela perspectiva de uma família branca, rica, instruída e socialmente influente. Mas praticamente não examina como esse processo atingiria pessoas negras, pobres e outros grupos historicamente vulnerabilizados. O fim da democracia para os privilegiados pode ser, para os pobres e negros, a intensificação de uma violência que nunca deixou de acontecer.
O psicanalista Christopher Bollas descreve no capítulo nono o fascismo mental como erotização da unidade. O indivíduo experimenta satisfação ao imaginar-se inteiro, puro, livre de contradições, um "gozo da ordem". O fascismo pode mobilizar investimentos libidinais na obediência, na identificação com o poder e na fantasia de pertencimento a uma coletividade homogênea.
Liz aparece como uma jovem educada, delicada e aparentemente inofensiva. Ao mesmo tempo, propõe a concentração de poder e sustenta instituições repressivas. A sua expressão afetuosa funciona como parte de uma apresentação social cuidadosamente administrada. A sua promessa de pertencimento oferecida pelo movimento político se torna especialmente sedutora para pessoas que se sentem inferiorizadas ou deslocadas em seus grupos de origem.
Até as relações mais íntimas como as familiares são constituídas historicamente. A relação familiar, portanto, é organizada e reorganizada pela estrutura de poder que se estabelece fora dela. Horkheimer e Adorno nos lembram que “a família não só depende da realidade social, em suas sucessivas concretizações históricas, mas também está socialmente mediatizada, mesmo em sua estrutura mais íntima”.
O Aniversário sugere ainda que a transformação política interfere nas condições em que as pessoas conseguem lidar com suas frustrações. Quem possui autoridade passa a sentir que pode exercer violência e, ao mesmo tempo, quem é perseguido também se torna mais suscetível a atitudes extremas. Josh começa como um escritor fracassado, economicamente dependente dos pais e ressentido diante do sucesso das irmãs. Mais tarde, torna-se um homem influente, bem vestido, seguro e ameaçador. Josh encontra então por meio do poder e da influência uma reparação narcísica.
Uma interpretação possível para Josh é que a adesão ao movimento oferece reconhecimento, segurança e uma identidade que ele anteriormente parecia ter dificuldade de sustentar. A relação com Liz acrescenta uma dimensão afetiva à adesão política. Há uma convergência entre o desejo de ser amado, o desejo de reconhecimento e o pertencimento a uma causa. A psicanálise recupera ou reforça uma dimensão libidinal no fazer político. Esse recurso da teoria psicanalítica pode ajudar a analisar a satisfação associada à autoridade, à superioridade e ao pertencimento a um grupo que se considera responsável por regenerar a nação.
Distopias costumam colocar no centro a produção do medo, o afastamento entre as pessoas e a formação de categorias de inimigos. Uma distopia, no geral, funciona como uma elaboração imaginativa de tendências que já existem no presente. Em The Handmaid's Tale, por exemplo, é exibida a regulação dos corpos e a transformação das famílias em instrumentos do regime. Em Filhos da Esperança, a militarização e a perda da confiança no futuro.
Outros filmes permitem aprofundar essas relações entre autoritarismo, subjetividade e vida cotidiana. Em A Onda (2008), a experiência de pertencimento a um grupo revela a facilidade com que o desejo de reconhecimento pode se converter em obediência e intolerância. A Fita Branca (2009) investiga como a repressão, a violência e a rigidez moral atravessam a educação das crianças e as relações familiares, criando condições subjetivas favoráveis ao autoritarismo. A Vida dos Outros (2006) acompanha os efeitos da vigilância estatal sobre a intimidade e Zona de Interesse (2023) apresenta uma família que preserva uma rotina doméstica aparentemente tranquila ao lado do campo de extermínio de Auschwitz.



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