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Crises de ansiedade: algumas considerações

"Head" de Michelangelo (1530)
"Head" de Michelangelo (1530)

No espaço da clínica psicanalítica, a ansiedade costuma aparecer como profundamente corporal. Manifestações de aperto no peito, sufocamento, aceleração cardíaca, garganta fechada, tremores. A ansiedade, entretanto, do ponto de vista psicodinâmico, não é tão somente uma pane, pois é também uma tentativa de proteção. O eu percebe ou sente que algo ameaça sua organização. Essa ameaça pode ser desde um excesso pulsional a um perigo interno, uma ameaça superegoica, uma repetição traumática, uma vivência de desamparo.


Ainda do ponto de vista corporal, mas juntando com algumas considerações psicodinâmicas, na ansiedade podemos falar, amparando-se em autores da psicanálise como Ferenczi, que há uma sobrecarga de excitação no órgão. O aparelho corporal passa a carregar uma intensidade psíquica que excede sua função vital, geralmente quando tomado por uma excitação que não encontrou outra forma de elaboração. A crise ansiosa, nesse sentido, pode indicar quando algo no ambiente deixou de ser vivido como sustentador e passou a ser vivido como ameaça.


Assim, a ansiedade é sinal de perigo: o eu percebe algo como ameaça e mobiliza defesas. Mas também é experiência corporal, pois não se manifesta apenas só como pensamento, mas como sufocamento, aperto, taquicardia, tensão, tremor, nó na garganta, dor abdominal. E é também tentativa de proteção, uma vez que tenta alertar para impedir algo pior, como uma invasão pulsional, uma quebra do eu, uma repetição traumática, uma experiência de aniquilamento.


Taquicardia, falta de ar, tontura, aperto no peito e calor passam a ser lidos como sinais de catástrofe. A pessoa não ganha confiança na própria capacidade de metabolizar a crise. Primeiro, vem a detecção de ameaça. Em segundos, entra o sistema simpático, que mobiliza adrenalina/noradrenalina, acelera o coração, aumenta vigilância, como se o sujeito estivesse prestes a sofrer algum ataque à sua vida. Na ansiedade, é comum respirar mais rápido, mais alto, pelo peito, ou tentar puxar ar demais. Isso pode reduzir o CO₂ no sangue e gerar tontura, formigamento, sensação de irrealidade, aperto, mais falta de ar.


Em ataques de pânico, os sintomas costumam atingir o pico em poucos minutos. Algumas fontes clínicas descrevem pico geralmente dentro de cerca de 10 minutos, embora o mal-estar residual possa durar mais. No geral, o corpo não consegue manter adrenalina máxima para sempre. A crise parece infinita por dentro, mas fisiologicamente ela tende a formar uma curva. Mas durante isso alguns pensamentos ansiosos podem criar pequenos repiques.


Uma crise de ansiedade não é um bloco fixo. Ela tem uma sequência: antecipação → ativação corporal → pico → interpretação catastrófica → repiques → descida → ressaca ansiosa.

Quando a pessoa não entende essa curva, ela interpreta o pico como se fosse infinito. A frase interna é: “isso não vai passar”. Essa é uma distorção temporal muito importante. A crise piora porque o sujeito perde a confiança na temporalidade fisiológica do corpo: ele não consegue sentir que aquilo tem começo, meio e fim. A sensação é de eternização da crise. A crise é tão convincente porque dá ao corpo uma certeza que a realidade ainda não deu. Passado e futuro esmagando o presente.


Esses sintomas comprimem o tempo. A pessoa não consegue pensar em “daqui a meia hora vai passar”. Ela só sente: “preciso resolver agora.” O tempo longo é sequestrado e o tempo curto é imposto. Uma crise atual raramente é apenas atual. Ela pode reativar marcas anteriores: outras crises, experiências de desamparo, situações de humilhação, sufocamento, aprisionamento, abandono, perda de controle. Então, na crise, o corpo pode estar respondendo não apenas ao presente, mas a uma cena temporal condensada.


Além da descarga rápida, há uma resposta mais lenta envolvendo hipotálamo, hipófise e adrenal, ligada ao cortisol. Esse eixo organiza uma resposta mais prolongada ao estresse. Por isso, depois de uma crise, a pessoa pode ficar exausta ou mesmo com dores.


Para algumas pessoas, além das crises em si, existe também o pré-pico, um estado de monitoramento constante. Isso mantém o corpo em ansiedade antecipatória. A fisiologia não explode, mas fica elevada. É como se o organismo estivesse com o motor muito ligado.


Do ponto de vista psicossomático, quando algo não consegue ser representado, simbolizado ou historizado, pode aparecer como corpo. A crise seria uma forma de expressar que algo do excessivo entrou em campo. Não necessariamente algo completamente consciente, aliás. Às vezes é uma lembrança sem imagem, uma situação de desamparo, uma fantasia de aprisionamento, uma ameaça de humilhação, uma perda de controle, uma exigência interna cruel, uma separação, uma invasão.


Em ansiedades mais generalizadas, o sistema de alarme fica hiperreativo, e o sistema de regulação racional/executiva pode não conseguir conter bem essa ativação. Isso indica para uma arquitetura psicossomática de alarme.


Já nas ansiedades sociais, estamos falando de hiperatividade quando a pessoa é exposta a sinais sociais ameaçadores, como rostos críticos ou situações de fala pública. O sujeito pode interpretar sinais sociais como mais ameaçadores do que são, especialmente quando envolvem exposição, julgamento, crítica ou vergonha.


Assim, a ansiedade envolve a ativação do sistema límbico, do eixo do estresse e de respostas automáticas de sobrevivência, podendo alterar o funcionamento do sujeito quando se torna crônica. Ansiedade e estresse fazem o cérebro liberar cortisol, o chamado “hormônio do estresse”. Em curto prazo, isso ajuda o corpo a reagir; em longo prazo, pode desgastar o organismo e contribuir para problemas físicos e mentais.


Ao mesmo tempo, é importante não perder a dimensão existencial quando falamos sobre ansiedade. Afinal, ansiedade não é sinônimo de doença, mas sinal de que o sujeito está diante de algo que toca sua existência. Autores mais existencialistas como Rollo May vão descrever a ansiedade como uma experiência que aparece quando algo ameaça um valor considerado essencial para a existência da pessoa. Não é qualquer incômodo, portanto. É uma ameaça ao modo como a pessoa se sustenta como sujeito. Algo como: medo de perder alguém, fracassar, não corresponder a uma expectativa, deixar de ser quem se imaginava ser, perder um lugar no mundo.





 
 
 

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