Quando a ansiedade é patológica?
- Rafael Santos
- 17 de set. de 2025
- 2 min de leitura

A ansiedade não é, em si, um fenômeno “patológico”, mas exerce uma função de vigilância — um sistema de alarme que ajuda o organismo a se preparar para mudanças inesperadas no meio. O problema começa quando esse alarme deixa de responder apenas a perigos externos e passa a ser acionado por “ameaças psicológicas internas". Nesse ponto, a vigilância torna-se um estado persistente de alerta frente a partes de si tratadas como se fossem externas, abrindo caminho para a cronicidade.
A manutenção crônica do mal-estar se deve ao enrijecimento de manobras defensivas que, embora análogas a respostas úteis em perigo real (ataque, fuga, submissão), passam a operar como padrões repetitivos.
Em contextos ocidentais, é comum reagir defensivamente a “todo sentimento irracional”, o que encoraja o fechamento defensivo em vez da simbolização e da integração afetiva — terreno onde a ansiedade tende a circular sem resolução.
Assim, a ansiedade se patologiza quando a vigilância é capturada por ameaças internalizadas e quando a pessoa passa a depender de rotinas defensivas que evitam o encontro transformador com o que a angustia. O resultado é um alarme que nunca toca “em falso”.
De certa forma, a análise tem o papel de restaurar a função da ansiedade, ajudando o paciente a diferenciá-la de perigos internos e a reintegrá-la ao fluxo da vida psíquica. Sintomas ansiosos são comunicações disfarçadas, e a análise busca dar-lhes significado. Em vez de “extinguir” a ansiedade, o processo analítico abre espaço para que ela seja lembrada, simbolizada e historicamente situada.
No campo transferencial, a repetição da ansiedade se mostra em ato, mas em um espaço protegido. Ali, o paciente pode ensaiar versões alternativas de si e da própria história, explorando diferentes maneiras de lidar com situações que antes produziam angústia.
A pessoa ansiosa não reage a um “sem sentido”, mas a uma cena deslocada, como se estivesse em outro cenário. Desde Freud, falamos em “sinal de perigo” e repetição: algo do passado se interpõe no presente e o sujeito reage ao agora como se estivesse “lá”. O presente é lido por um roteiro prévio.
A ansiedade pode funcionar como um um alarme interativo: antecipa abandono, invasão, humilhação, e empurra para respostas estereotipadas. No limite, a ansiedade não é um erro do aparelho psíquico, mas uma linguagem que insiste em ser ouvida. Não surge do nada, é um eco de uma cena antiga que se infiltra no agora e o distorce. É necessário perceber que aquilo que parecia ameaça absoluta é, na verdade, uma memória em busca de tradução. Nesse ponto, mais do que cessar, ela se transforma em recurso.



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