Normalopatia enquanto renúncia de si
- Rafael Santos
- 8 de jan. de 2020
- 5 min de leitura
Atualizado: 26 de jan. de 2024

Meu nome é Rafael Santos Barboza, sou psicólogo (CRP 06/142198) e psicanalista, atuando com atendimentos de forma remota/online. Nesse texto, discuto a ideia de que a normalopatia aponta para um modo de vida em que o sujeito desenvolve sua casca e não o seu cerne.
Texto: A princípio, o termo normalopatia pode dar a entender que estamos diante de mais uma classificação diagnóstica dos Manuais Psiquiátricos, tantas vezes criticados em razão da inflação de categorizações que, em alguns casos, acabam patologizando toda vivência que se considere desviante de um padrão. Entendo a normolopatia, por outro lado, como uma espécie de crítica a essa ideia, uma expressão crítica para problematizarmos o normal e o patológico.
A nomeação dos sintomas acaba sendo sempre uma espécie de síntese incompleta. Uma palavra como "depressivo" ou “ansioso”, por exemplo, não consegue abarcar toda a complexidade de um sujeito que pode vir a identificar-se com esse diagnóstico. Da forma como penso, a normalopatia não deveria ser vista como mais um diagnóstico, mas um conceito-chave que possui o objetivo de levantar reflexões sobre o excesso de adaptação ao meio, o que leva o sujeito a perder a espontaneidade e a sua criatividade, para dar um lugar ao que o psicanalista Winnicott chamou de "falso self", ou seja, um self reativo ou "uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço", para usar um trecho do poeta Fernando Pessoa.
Na literatura e na mídia há o uso de dois termos: normopatia e normalopatia. O primeiro faz referência à psicanalista Joyce McDougall, a partir de impasses encontrados com alguns pacientes na clínica: "[...] pois ele tinha uma imensa dificuldade - quando não uma total impossibilidade - de fazer um mergulho profundo em seu mundo interno, exigência básica para o sucesso de uma análise", explica Flávio Ferraz em seu livro Normopatia - Sobreadaptação e Pseudonormalidade. Já a normalopatia é um termo utilizado pelo psicanalista brasileiro Christian Dunker, como nesta matéria. Além disso, o conceito de Donald Winnicott de “falso self”, como já mencionado, é essencial para pensar essas questões. É preciso deixar claro, por outro lado, que não há uma padronização no entendimento dessas expressões, sendo utilizadas aqui como ferramentas para a reflexão.
Regras e réguas sociais
Alguns sintomas, a depender do contexto social (a nível micro e macro) podem ser mais valorizados do que outros. A vivência depressiva, por exemplo, atualmente é muito rechaçada em uma paisagem cultural que hipervaloriza a felicidade e a performance. Em psicanálise, aquilo que é rechaçado pode retornar de uma forma muito mais poderosa e intensa.
Georges Canguilhem já havia sinalizado sobre a “norma” que a expressão normal contém. Ou seja, o normal prevê uma espécie de roteiro, protocolo a ser seguido. Em 1943 com "O Normal e o Patológico", o filósofo francês elaborou uma profunda reflexão sobre o sentido do normal e do patológico, colocando em discussão o que estava aparentemente estabelecido. Esse autor destacou a ideia de norma que existe no conceito de normal e de que "não existe fato que seja normal ou patológico em si". Nessa mesma obra, Canguilhem questiona a ideia de adaptação como normal: "Definir a anormalidade a partir da inadaptação social é aceitar mais ou menos a idéia de que o indivíduo deve aderir à maneira de ser de determinada sociedade”.
Sobre isso, recordo a colocação de Christian Dunker, quando sinaliza que o sintoma "é um fragmento de liberdade perdida”. Nesse sentido, a normalopatia representa um excesso de adaptabilidade. O sujeito adapta-se de forma sintomática ao mundo, através de um excesso de acomodação, que produz como custo um corte na singularidade do seu desejo e da sua história de vida. A própria capacidade de sofrer enquanto potência que leva à transformação é abafada.
Criatividade e espontaneidade
Retomando o psicanalista inglês Donald Winnicott, o conceito de saúde não é negativo, ou seja, saúde não é necessariamente ausência de doenças. O sujeito saudável teria mais relação com a capacidade de ser espontâneo e criativo. O espaço potencial (uma espécie de terceira realidade, entre o mundo interno e a realidade externa) na normalopatia parece danificada. O sujeito enxerga as padronizações das expectativas sociais como uma espécie de inviolabilidade ou de caminho para uma nunca alcançada completude.
A normolopatia, portanto, aponta para o empobrecimento do plano fantasmático: "Sua vida onírica e de fantasia parece amortecida, do que resulta um rebaixamento da criatividade e do potencial de intervenção sobre a realidade, no sentido de transformá-la", de acordo com Marco Segre e Flávio Ferraz.
Nesse contexto, a reatividade toma o lugar da espontaneidade. Há uma expressão interessante para pensar o assunto que é a "fuga para a sanidade", também proposta por Winnicott, em que o sujeito, para fugir da sua própria mente, abriga-se em uma racionalidade reativa, excessiva.
A adaptação social é o modo encontrado para o reconhecimento (o melhor caminho que pôde encontrar). Winnicott diria que é um sujeito que desenvolve sua casca e não o seu cerne. Para esse autor, a criatividade é a capacidade de criar o mundo. Primitivamente, essa criatividade tem relação com uma ilusão necessária do bebê de que é ele quem cria o mundo. O contrário, na normalopatia trata-se de um sujeito excessivamente adaptado, sensível às exigências sociais, sob o alto custo do seu sentido do real.
Em psicanálise, a ideia de cura não passa por uma adaptação ao meio social, podendo essa adaptação ser justamente uma forma de inibir a expressão singular do sujeito. Joyce McDougall, por exemplo, afirmou que a ideia de normalidade não pertence à psicanálise. Um sujeito extremamente adaptado, próximo às exigências do meio, pode ser alguém que está distante da sua própria subjetividade. Conforme Flávio Ferraz, as exigências culturais e sociais podem ser patogênicas, levando o sujeito a renunciar algo de si.
Esse autor brasileiro refere que a questão da pseudonormalidade é um ponto interessante, pois trata-se de "uma normalidade estereotipada ou hipernormalidade reativa, decorrente de um processo de sobreadaptação defensiva". Seria, então, um processo defensivo “contra o risco de sérias desorganizações, sejam psíquicas, sejam somáticas”.
Camaleão
Entre o mundo interior, imaginativo, e o mundo exterior, compartilhado socialmente, há uma barreira poderosa. Esse limite é um edifício defensivo, "visando proteger o si-mesmo verdadeiro e espontâneo: este é isolado para não ser traumatizado", diz Elsa Dias em seu livro "Teoria do Amadurecimento".
Em "Não sei quantas almas tenho", Fernando Pessoa escreve: "Atento ao que sou e vejo, / Torno-me eles e não eu / Cada meu sonho ou desejo / É do que nasce e não meu. / Sou minha própria paisagem; / Assisto à minha passagem, / Diverso, móbil e só, / Não sei sentir-me onde estou".
Em outro poema, o poeta português escreveu os seguintes versos: "Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens".
Metaforicamente, podemos pensar na camuflagem utilizada pelos animais para esconder-se junto às cores e texturas do ambiente. Mas de tanto disfarçar-se, esquece ou perde a sua cor original, vivendo sob a tirania do meio.